Análise: Na ONU, Lula e Trump expõem duas visões de mundo que contrastam
Líderes do Brasil e dos EUA ofereceram respostas distintas para um sistema internacional no qual regras universais perdem força, assimetrias de poder ficam mais explícitas e a soberania volta ao centro da disputa política
Há algo mais profundo no contraste entre os discursos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na abertura da Assembleia Geral da ONU, desta terça-feira (22) do que uma oposição convencional entre multilateralismo e unilateralismo.
Ambos falaram, essencialmente, sobre soberania. O que os separa é a resposta a uma questão anterior: em um sistema internacional cada vez mais assimétrico e menos previsível, de onde deve vir a proteção da autonomia dos Estados?
A pergunta é particularmente importante porque a ordem que emergiu do pós-guerra atravessa uma transformação estrutural. O Conselho de Segurança permanece paralisado em conflitos centrais, instituições jurídicas internacionais enfrentam contestação e a competição tecnológica, energética e mineral desloca parte da geopolítica para áreas em que as regras ainda estão sendo escritas.
A crise contemporânea não é, portanto, apenas de instituições. É também uma disputa sobre quem terá capacidade de definir as normas da próxima ordem.
É nesse ponto que Lula e Trump se separam.
No discurso brasileiro, soberania aparece como proteção contra a assimetria. Quando Lula afirma que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, a frase não diz respeito apenas à relação com Washington. Ela sintetiza uma concepção segundo a qual Estados intermediários precisam de regras, instituições e coalizões multilaterais justamente porque não dispõem do mesmo poder material das grandes potências.
O multilateralismo, nessa leitura, não reduz necessariamente a soberania. Pode ampliá-la ao aumentar o custo da coerção exercida pelos mais fortes. A defesa da ONU, do direito internacional e de mecanismos coletivos de governança deve ser entendida dentro dessa lógica.
Trump parte do problema oposto. Para a maior potência do sistema, instituições internacionais podem representar não apenas instrumentos de influência, mas também restrições à própria capacidade de agir. Sua crítica ao Tribunal Penal Internacional, sua defesa de liberdade estratégica diante do Irã e sua resistência à criação de novas amarras internacionais para a inteligência artificial expressam uma soberania entendida primordialmente como preservação de margem de manobra.
Não se trata necessariamente de abandonar a cooperação. Washington continua buscando aliados e ação coordenada quando isso serve a seus objetivos. A diferença é que a legitimidade da instituição tende a ser medida por sua compatibilidade com a liberdade de ação americana.
Esse contraste produz um paradoxo interessante. Lula recorre ao multilateralismo para proteger a autonomia nacional; Trump reivindica a autonomia nacional para limitar o alcance do multilateralismo. Nos dois casos, portanto, soberania e instituições não aparecem como conceitos opostos. O que muda é a posição ocupada por cada país na distribuição internacional de poder.
A inteligência artificial torna essa diferença ainda mais clara. Lula a apresentou como problema de governança: uma tecnologia capaz de concentrar poder exige regras que não sejam determinadas exclusivamente por empresas ou por poucos Estados.
Trump enfatizou o risco inverso: que a regulação reduza a vantagem competitiva americana justamente quando a liderança tecnológica se converte em instrumento de poder nacional. A controvérsia sobre IA reproduz, em nova arena, uma velha questão da política internacional: regras comuns protegem os Estados da concentração de poder ou congelam vantagens existentes e limitam quem já as possui? A discussão sobre supervisão internacional da IA já ocupa parte relevante da agenda desta Assembleia Geral.
Há ainda um terceiro elemento. Os discursos sugerem que a atual disputa não ocorre entre uma ordem baseada em regras e um mundo sem regras. O conflito é cada vez mais sobre quais regras sobreviverão, quem poderá escrevê-las e quem terá capacidade de abrir exceções a elas. Energia, minerais críticos, inteligência artificial, sanções, plataformas digitais e sistemas de pagamento são hoje tão relevantes para essa disputa quanto as instituições tradicionais de segurança.
Por isso, a sucessão de Lula e Trump na tribuna das Nações Unidas teve uma força simbólica particular. Um falou a partir da preocupação típica de uma potência média — como impedir que a hierarquia internacional se transforme em subordinação. O outro, a partir do dilema de uma superpotência — como impedir que instituições criadas em grande medida sob sua liderança passem a limitar sua capacidade de exercer poder.
Talvez esteja aí uma das perguntas definidoras desta fase da ordem internacional. Não se trata mais apenas de saber se o multilateralismo sobreviverá. Trata-se de descobrir que tipo de soberania ele será capaz de acomodar.



