Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: Precisamos falar sobre o Canal do Panamá

Donald Trump fez diversas declarações sobre retomar controle do canal, citando preocupações com influência chinesa na região

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Segundo notícias que correram ao longo da última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria solicitado ao Pentágono que desenvolvesse opções militares para garantir o acesso do país ao Canal do Panamá.

Essa iniciativa surge após declarações de Trump sobre retomar o controle do canal, citando preocupações com a influência chinesa na região. Em resposta, autoridades panamenhas reafirmaram a soberania do país sobre o canal, considerando-a uma “conquista irreversível” e “não negociável”.

O Canal do Panamá é considerado estratégico por Trump devido à sua importância econômica e militar. O canal conecta os oceanos Atlântico e Pacífico, sendo vital para o comércio internacional, permitindo uma navegação mais curta, rápida e barata para navios comerciais e militares dos Estados Unidos.

Trump vê com preocupação o aumento da influência da China na região, principalmente em operações portuárias e investimentos em infraestrutura próximos ao canal, o que poderia, segundo ele, ameaçar o acesso norte-americano a essa rota essencial em momentos de crise ou conflito.

Embora Trump alegue com frequência que “o Canal do Panamá foi construído por americanos para americanos” e que, por isso, eles estariam dispostos a "tomá-lo de volta", o tema é mais complexo do que parece, e merece atenção às suas nuances.

A participação dos Estados Unidos na construção do Canal do Panamá ocorreu no início do século XX, após fracassada tentativa francesa. O projeto original, liderado pela França na década de 1880, foi interrompido devido a dificuldades financeiras e sanitárias.

Em 1903, os Estados Unidos apoiaram uma revolta separatista do Panamá contra a Colômbia. O novo governo panamenho assinou, nesse contexto, o Tratado Hay-Bunau-Varilla, cedendo aos norte-americanos o controle sobre uma faixa de terra conhecida como Zona do Canal, local em que o canal seria construído.

As obras começaram em 1904, duraram uma década e foram concluídas em 1914. Os Estados Unidos administraram o canal e a zona ao seu redor por décadas, garantindo poder econômico, estratégico e militar sobre a região.

Na década de 1970, porém, surgiram movimentos no Panamá reivindicando controle sobre o canal, considerado uma questão de orgulho nacional e soberania territorial.

Pressões internacionais e mudanças na política externa norte-americana contribuíram para que, em 1977, o presidente Jimmy Carter assinasse com o líder panamenho Omar Torrijos os Tratados Torrijos-Carter.

Esses tratados estabeleceram um cronograma para a transferência gradual do controle do canal aos panamenhos. Assim, em 31 de dezembro de 1999, os Estados Unidos devolveram o controle completo do Canal ao Panamá, encerrando quase um século de domínio norte-americano na região.

Desde então, o Panamá mantém a operação e soberania completa sobre o canal, garantindo neutralidade e acesso aberto à navegação internacional.

Apesar dessa transição, os Estados Unidos continuaram a se beneficiar amplamente do canal nas últimas décadas, especialmente do ponto de vista econômico, pois ele é uma rota essencial para o comércio marítimo do país.

Além disso, militarmente, embora não controlem o canal, os norte-americanos mantêm uma relação próxima com o Panamá, garantindo liberdade de navegação, segurança regional e neutralidade da passagem, o que lhes assegura um acesso estável e confiável.

Embora seja compreensível que haja preocupações de ordem estratégica com relação ao Canal do Panamá, sobretudo diante da crescente influência chinesa na região, a ideia de “retomar” o seu controle direto pelos Estados Unidos é algo visto com muita reserva pela comunidade internacional e mesmo pelo establishment do serviço externo dos Estados Unidos.

Isso porque qualquer tentativa de reverter o status quo desrespeitaria acordos internacionais vigentes, abalaria profundamente a credibilidade diplomática norte-americana e reacenderia acusações históricas de imperialismo na América Latina.

Além disso, já se conhecem alternativas econômicas muito mais eficazes e menos conflituosas para assegurar os interesses dos Estados Unidos na região, tornando a opção militar no mínimo contraproducente.