Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora, pesquisadora e Senior Fellow do CEBRI, do Inter-American Dialogue e do GMF. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: Quanto poder Trump realmente terá depois da derrota no Congresso?

A nova maioria democrata limita a agenda presidencial, mas não encerra a capacidade de Trump de governar, vetar e confrontar o legislativo

As Midterms alteraram as condições em que decisões presidenciais serão financiadas e contestadas daqui para frente. Isso é fato. Até aqui, o alinhamento entre Casa Branca e Congresso reduziu os custos de governar. A partir de janeiro, Trump perderá o controle da agenda legislativa e enfrentará comissões capazes de convocar autoridades, exigir documentos e investigar sua administração. Fiscalização não garante responsabilização. Intimações podem ser contestadas. Mas o governo já não escolherá sozinho quais conflitos merecem escrutínio público.

A conquista do Senado torna a mudança particularmente relevante. Em 2018, Trump perdeu a Câmara, mas preservou uma maioria senatorial que confirmou juízes e integrantes de seu governo. Desta vez, nomeações para tribunais, agências e embaixadas dependerão de adversários. Adiar vagas judiciais, sobretudo na Suprema Corte, pode limitar o legado institucional de uma Presidência.

Isso não transforma a oposição em governo, no entanto. Em boa parte da legislação, são necessários 60 votos no Senado para encerrar o debate, número que os democratas não possuirão. Trump também poderá vetar projetos, cuja aprovação definitiva exigiria então dois terços de cada casa. Os Democratas poderão investigar, bloquear e negociar, mas não impor sozinhos sua agenda.

O orçamento será o terreno mais palpável dessa mudança. Financiar o governo e elevar o teto da dívida exigem ação do Congresso. Trump terá de negociar prioridades, inclusive despesas militares, saúde e políticas sociais. Uma paralisação administrativa, contudo, pode desgastar a Casa Branca e os Democratas, agora responsáveis por encontrar soluções para problemas que prometeram enfrentar. O poder de bloquear também implica dividir os custos da paralisia.

Na imigração, nas tarifas e na política externa, Trump conserva autoridade executiva expressiva. A Casa Branca já preparava formas de agir sem a necessidade de novas leis. A guerra com o Irã ilustra o dilema. O Congresso poderá condicionar recursos, investigar decisões e contestar a condução de conflitos, mas não conseguirá, apenas com maiorias simples, impor a retirada de forças diante de um veto. A capacidade presidencial de agir permanece, embora sujeita a controles judiciais, fiscais e políticos.

Há ainda o poder de disciplinar o próprio partido, que nenhuma regra constitucional garante. As derrotas enfraquecem a ideia de que a lealdade a Trump basta para vencer eleições. Republicanos atentos a 2028 poderão buscar maior autonomia, sem necessariamente romper com um presidente que conserva influência entre seus eleitores. A capacidade de comandar a coalizão também será testada.

O resultado dessa semana tensiona a relação entre autoridade e responsabilidade. Trump poderá atribuir impasses ao Congresso, enquanto os Democratas tentarão demonstrar que a fiscalização produz efeitos concretos na vida dos eleitores. Os próximos dois anos mostrarão quem conseguirá transformar esses limites em decisões e quem pagará politicamente pelo que permanecer sem solução.