Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: Trump, a paz e o eterno “quase”

Apesar dos gestos e da ambição de ser lembrado como mediador global, Trump tem colecionado frustrações em sua diplomacia de “quases”, incapazes, até o momento, de transformar anúncios sobre Ucrânia e Gaza em avanços concretos rumo à paz

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Uma das marcas de Donald Trump nesse segundo governo é a tentativa de reposicionar os Estados Unidos como o epicentro incontornável da diplomacia global, não necessariamente por uma convicção institucionalista, mas, talvez, por ambição personalista.

A busca pela consagração como mediador de paz, inclusive com alusões explícitas a um futuro Prêmio Nobel, tornou-se elemento central de sua agenda simbólica.

No entanto, a despeito do teatro diplomático e dos anúncios grandiloquentes, o presidente enfrenta impasses difíceis nos dois tabuleiros mais sensíveis da política internacional contemporânea: Ucrânia e Gaza.

Em ambos os casos, Trump esbarra em contradições estruturais, legados históricos e limitações de credibilidade que transformam cada tentativa de mediação em um “quase”: promissor no enunciado, mas ainda estéril nos resultados.

O encontro de Trump com Vladimir Putin no Alasca, anunciado como um marco na reabertura de canais diretos entre Washington e Moscou, simbolizou o esforço de reposicionar os Estados Unidos como potência capaz de “trazer os inimigos à mesa”.

A cena, cuidadosamente construída, buscou evocar o espírito dos grandes momentos da diplomacia de cúpula do século XX. No entanto, a substância foi outra.

Embora fontes próximas à Casa Branca tenham divulgado que o diálogo abordou um possível cessar-fogo condicionado, com concessões territoriais no leste ucraniano e garantias de neutralidade de Kiev, o desfecho foi inconclusivo.

O governo ucraniano reagiu com desconfiança, interpretando a proposta como uma capitulação disfarçada. Já os aliados europeus, sobretudo Polônia e Estados Bálticos, demonstraram desconforto com qualquer arranjo que possa institucionalizar ganhos russos.

As frustrações se acumulam. Trump subestimou a complexidade de um conflito que não é apenas militar, mas existencial: para a Ucrânia, trata-se da própria sobrevivência enquanto Estado; para Moscou, da reafirmação de sua esfera de influência.

O custo político interno também é expressivo. Parte do establishment republicano, tradicionalmente alinhado à contenção russa, vê na aproximação um erro estratégico, enquanto setores trumpistas defendem a tese isolacionista de que “a guerra da Europa não é problema norte-americano”.

Entre a necessidade de mostrar resultados concretos e o risco de alienar bases domésticas e parceiros históricos, o presidente tem caminhado sobre gelo fino.

No Oriente Médio, Trump tenta reeditar sua narrativa de “deal maker”, apostando em um roteiro que o consagrou nos Acordos de Abraão.

O anúncio recente de que o Hamas teria aceitado libertar um grupo de reféns chegou a ser celebrado como o prenúncio de um cessar-fogo mais amplo. Mas, mais uma vez, a história se repetiu: o acordo pode desmoronar em meio a divergências e garantias de segurança para o território de Gaza no que diz respeito a Israel.

Nos dois casos, a diplomacia trumpista opera mais no plano performativo do que no substantivo. Cada gesto é calibrado para maximizar visibilidade, com conferências de imprensa, postagens em redes sociais e frases de efeito cuidadosamente ensaiadas.

O problema é que a política externa não se resolve por narrativa e sim por capacidade de articulação e coerência estratégica.

A sucessão de “quases” — o encontro que não gera acordo, o anúncio que não se materializa, o avanço que não se consolida — desgasta não apenas a imagem de eficácia, mas também a própria noção de liderança dos Estados Unidos.

Em Kiev e em Tel Aviv, cresce a percepção de que Washington se move mais por cálculo doméstico do que por visão de longo prazo. Nos corredores diplomáticos, fala-se de uma “paz de campanha”: esforços moldados para o ciclo eleitoral, não para a estabilidade global.

Trump enfrenta um dilema clássico da política externa norte-americana em momentos de retração hegemônica: como sustentar influência sem compromisso de presença.

A retórica do “America First” limita a margem de manobra de um mediador global, enquanto o ceticismo dos aliados e a assertividade de rivais reduzem o poder de dissuasão dos EUA.

Ao fim, a busca de Trump por um legado pacificador esbarra na própria lógica que o sustenta: a do conflito como instrumento de afirmação. O paradoxo é eloquente. Um líder que precisa de crises para se projetar dificilmente poderá resolvê-las.

O projeto de Trump de se converter em “mediador universal” revela tanto ambição quanto vulnerabilidade. Se por um lado o intento de alcançar um Nobel da Paz simboliza o desejo de legitimação histórica, por outro expõe a distância entre performance e política.

A paz, afinal, não é um acordo pontual, mas a construção paciente de confiança, algo que não se improvisa entre cúpulas relâmpago e postagens virais.

Em tempos de sobreposição de crises, o mundo assiste à tentativa de um retorno norte-americano ao centro da cena. Mas, até aqui, trata-se mais de um retorno encenado do que consolidado.

A diplomacia do espetáculo produz manchetes, não estabilidade. E talvez o maior paradoxo do momento seja este: na ânsia de conquistar um prêmio pela paz, Trump se torna refém da guerra como palco permanente de sua própria narrativa.