Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Entre dois Trumps: a transformação de um projeto político em 100 dias

Mais radical, Trump 2.0 desafia instituições internas e contesta ordem global

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Os primeiros 100 dias do segundo mandato de Donald Trump evidenciam uma transformação significativa em relação ao seu primeiro governo.

Se o Trump de 2017-2021 já havia apostado no estilo disruptivo, sua versão 2.0 demonstra uma agenda mais consistente, articulada e, notavelmente, mais radical tanto em política interna quanto externa.

O que assistimos não é uma simples continuidade, mas uma versão amplificada e mais profunda do projeto trumpista, agora liberto das hesitações que caracterizaram seu primeiro mandato.

No plano doméstico, a principal diferença reside na abordagem muito mais sistemática e eficaz de desafio às instituições estabelecidas e de concentração de poder no Executivo.

Enquanto o primeiro mandato foi marcado por conflitos improvisados com diferentes órgãos e poderes, frequentemente resultando em derrotas judiciais e impasses administrativos, os primeiros 100 dias da nova administração revelam maior capacidade de reconfiguração institucional, seja por meio de decretos executivos, pela substituição acelerada de funcionários de carreira por indicações políticas alinhadas ao presidente, ou pela simples resignação da oposição.

A criação do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), diretamente subordinado à Casa Branca e com poder de interferência nos demais ministérios, representou um salto qualitativo na concentração de poder que não encontra paralelo no primeiro mandato.

Diferentemente das tentativas anteriores de centralização, frequentemente bloqueadas pelo Congresso ou pelo Judiciário, a atual administração demonstra maior sofisticação jurídica e política na reengenharia institucional proposta, demonstrando um aprendizado derivado das frustradas tentativas anteriores.

A retórica contra o “Estado profundo” (deep state, em inglês), antes mais restrita a comícios e redes sociais, materializa-se agora em ações concretas que visam subordinar o aparato estatal a uma visão personalista de governança.

No plano internacional, a percepção de mudanças também é significativa. Se o primeiro Trump já sinalizava desconforto com o sistema internacional liberal e suas instituições, o novo mandato promove um abandono deliberado e sistemático dos pressupostos que orientaram a ordem internacional do pós-2ª guerra em favor de concepções geopolíticas e econômicas com traços típicos do século XIX.

A imposição agressiva de tarifas sobre produtos do mundo todo — com ênfase em setores estratégicos como aço, alumínio, automóveis e componentes eletrônicos — representa uma radicalização do protecionismo do primeiro mandato.

Enquanto as primeiras tarifas de 2018-2019 eram frequentemente justificadas como táticas negociais temporárias, o atual protecionismo é explicitamente apresentado como política econômica permanente, sinalizando uma reabilitação plena da lógica mercantilista que havia sido progressivamente deixada de lado ao longo das últimas décadas.

A retomada explícita de uma concepção geopolítica baseada em zonas de influência exclusivas marca outra diferença crucial.

As recentes declarações presidenciais afirmando o “direito legítimo” dos Estados Unidos de influenciar diretamente os rumos políticos e econômicos da América Latina representam uma atualização da Doutrina Monroe muito mais direta e assertiva do que qualquer posicionamento do primeiro mandato.

A mesma lógica parece fazer sentido quanto Trump pensa o papel de potências como China e Rússia.

A concepção de que as relações internacionais constituem um jogo de soma zero — em que os ganhos de uma nação necessariamente implicam perdas para outra — tomou contornos muito mais definidos nos atuais discursos presidenciais.

Além disso, a redução drástica do financiamento norte-americano a organizações multilaterais como a ONU e as críticas reiteradas à Otan, sob o argumento de que tais instituições exploram os recursos dos Estados Unidos sem oferecer benefícios proporcionais, evidencia também um salto qualitativo na postura cética quanto ao multilateralismo e mais do que isso -- o desembarque norte-americano desse modelo.

Logo, temos a consolidação de uma abordagem explicitamente transacional nas relações bilaterais, em que o valor de um relacionamento diplomático é medido exclusivamente pelos benefícios materiais imediatos que proporciona, adquiriu contornos muito mais definidos.

Não se enganem: o que testemunhamos nos primeiros 100 dias deste segundo mandato de Trump não é, portanto, mera continuidade do que já vimos antes, mas uma versão amplificada, mais articulada e potencialmente mais transformadora do projeto trumpista.

Esse movimento, não à toa, levanta questões sérias sobre a resiliência institucional da democracia norte-americana e sobre o futuro da ordem global.

Se o primeiro Trump frequentemente provocava sobressaltos no sistema sem conseguir alterá-lo estruturalmente, o atual demonstra maior capacidade de produzir transformações duradouras.