Análise: Francisco e a polarização no mundo
Pontificado foi espelho das tensões contemporâneas
Vivemos tempos marcados por rupturas e extremismos. A polarização política, social e cultural que atravessa o mundo contemporâneo tem se intensificado e se manifesta em diversas esferas: nas urnas, nas redes sociais, nos discursos oficiais, nas ruas. Poucos espaços escapam a esse fenômeno.
O papado de Francisco, encerrado com sua morte neste abril de 2025, é expressão disso. Desde sua eleição em 2013, o pontífice argentino se tornou uma figura central na disputa simbólica que atravessa nosso tempo — sendo, ao mesmo tempo, aclamado e contestado por setores opostos do espectro político, teológico e ideológico.
Seu legado, por isso, está menos na pacificação e mais na coragem de expor feridas abertas, inclusive dentro da própria Igreja.
Francisco não foi um papa neutro. Desde o início, adotou posturas que desafiavam tanto conservadores quanto progressistas, demonstrando que, no mundo de hoje, até mesmo a busca por equilíbrio pode ser vista como provocativa.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa ambivalência foi sua atuação em relação à comunidade LGBTQ+.
Ao mesmo tempo, em que publicou a declaração Fiducia supplicans, permitindo a bênção de casais do mesmo sexo, também endossou, em Dignitas infinita, a ideia de que a teoria de gênero e as cirurgias de redesignação sexual constituem graves violações à dignidade humana.
A tentativa de dialogar com diferentes sensibilidades gerou tanto aplausos quanto acusações de contradição.
Na esfera internacional, Francisco se envolveu diretamente em temas sensíveis.
Em meio à eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024, expressou publicamente sua preocupação com os dois principais candidatos — Donald Trump e Kamala Harris — classificando como “grandes males” tanto as políticas de deportação de imigrantes quanto o apoio irrestrito ao aborto.
A crítica simultânea aos dois polos do debate acentuou a percepção de que o Papa não se deixava instrumentalizar por nenhuma agenda específica, mas também o expôs a ataques vindos de todos os lados.
O Sínodo da Amazônia, realizado em 2019, foi outro momento de clivagem. Ao tratar da ordenação de homens casados, do papel das mulheres e da preservação dos povos indígenas, Francisco mobilizou esperanças de reformas profundas, sobretudo entre setores mais progressistas da Igreja.
No entanto, a exortação apostólica Querida Amazônia, que se seguiu, frustrou parte dessas expectativas ao evitar mudanças estruturais na doutrina.
Assim, Francisco foi simultaneamente acusado de ir longe demais e de não ter ido longe o suficiente.
A sua política externa e diplomacia papal tampouco escaparam às tensões geopolíticas do século XXI.
A aproximação com a China, por meio de um acordo para a nomeação conjunta de bispos, foi vista por críticos como uma concessão à repressão religiosa promovida por Pequim.
Da mesma forma, sua hesitação em condenar de forma mais contundente o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, gerou desconforto entre os que esperavam maior firmeza diante de violações de direitos humanos.
Para o Papa, manter canais abertos parecia mais importante do que confrontar diretamente os poderosos — o que, inevitavelmente, também gerou ruídos.
No campo das reformas internas, Francisco enfrentou com coragem a crise dos abusos sexuais, adotando políticas de tolerância zero e promovendo mudanças na Cúria Romana.
Ainda assim, decisões como a de manter cardeais acusados de omissão em seus postos, como no caso de Vincent Nichols, levantaram dúvidas sobre a efetividade de sua política de responsabilização.
Nem mesmo sua atuação em seu país de origem escapou do escrutínio. As relações próximas com lideranças políticas argentinas, como Cristina Kirchner, alimentaram críticas de interferência indevida na política doméstica e reabriram o debate sobre os limites entre o religioso e o político.
Do ponto de vista socioeconômico, Francisco foi talvez o mais contundente desde João Paulo II. Em documentos como Fratelli tutti e em declarações recentes, o pontífice condenou o nacionalismo excludente, a desigualdade e os efeitos predatórios do capitalismo contemporâneo.
Denunciou a gentrificação das cidades, os aluguéis descontrolados e a financeirização da vida como formas de violência estrutural contra os mais vulneráveis.
Para muitos, foi um líder global da justiça social. Para outros, um ideólogo próximo à esquerda populista. Outra vez, a polarização se impôs.
No fim das contas, Francisco não procurou agradar a todos, mas tampouco encarnou uma agenda única e coerente no sentido convencional.
Seu esforço parece ter sido o de provocar, iluminar zonas cinzentas e desafiar os fiéis a pensar para além das certezas confortáveis.
Sua voz, tantas vezes solitária, refletiu um tempo de incertezas e de posições extremadas.
Ao olhar para o futuro da Igreja, resta saber se seu sucessor dará continuidade a essa postura de ponte, de tensão produtiva, ou se haverá uma inflexão em direção a um dos polos da disputa.
O que é certo é que Francisco, com todos os paradoxos e complexidades que o definiram, representou com rara fidelidade as fraturas de nosso tempo. Sua liderança foi, ao mesmo tempo, bússola e espelho.



