Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

PCC, CV e a armadilha das respostas fáceis

A classificação das facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode fortalecer o combate ao crime, mas também ampliar riscos financeiros, regulatórios e de soberania para o Brasil

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A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas internacionais reacende, no Brasil, um debate que tem sido rapidamente capturado por narrativas simplificadoras.

De um lado, os que celebram a medida como um passo decisivo no combate ao crime organizado. De outro, os que enxergam nela o prenúncio de uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil. Ambas as leituras parecem insuficientes para compreender o que realmente está em jogo.

O primeiro ponto a reconhecer é que PCC e CV deixaram há muito tempo de ser apenas organizações criminosas domésticas. Ao longo das últimas décadas, expandiram sua presença para além das fronteiras brasileiras, conectando-se a rotas internacionais de tráfico, esquemas transnacionais de lavagem de dinheiro e mercados ilícitos espalhados pela América do Sul e por outras regiões.

Sob essa perspectiva, a decisão dos Estados Unidos reflete uma percepção crescente de que o crime organizado contemporâneo opera em escala global e exige respostas igualmente transnacionais.

Além disso, a designação amplia significativamente o arsenal jurídico disponível para Washington. Congelamento de ativos, sanções financeiras, compartilhamento de inteligência e monitoramento mais agressivo de fluxos financeiros passam a integrar um conjunto de instrumentos potencialmente mobilizáveis contra indivíduos, empresas e redes associadas a essas organizações.

Para os defensores da medida, trata-se de atacar o ponto mais sensível dessas estruturas: sua capacidade de movimentar recursos e transformar atividades ilícitas em poder econômico.

O problema é que a questão não termina aí.

A principal fragilidade da decisão reside justamente na fronteira conceitual entre terrorismo e crime organizado. PCC e CV são organizações extremamente violentas, mas sua lógica central continua sendo econômica. Seu objetivo não é impor uma agenda ideológica ou transformar a ordem política, mas maximizar lucros e controlar mercados ilícitos. Ao ampliar a definição de terrorismo para abarcar grupos dessa natureza, os Estados Unidos contribuem para uma expansão conceitual cujos limites permanecem pouco claros.

Mais importante ainda são os possíveis efeitos indiretos da medida. O debate público brasileiro tem concentrado atenções em uma hipótese pouco provável - a de uma intervenção militar dos Estados Unidos - enquanto ignora uma consequência potencialmente mais relevante: a financeira.

O precedente mexicano merece atenção. Nos últimos anos, designações semelhantes foram seguidas por sanções do Departamento do Tesouro, ações da OFAC e medidas do FinCEN que aumentaram significativamente os custos de operação de determinadas instituições financeiras. Em alguns casos, o acesso ao sistema financeiro internacional baseado no dólar tornou-se uma questão existencial.

Não há razão, ainda, para cravar que o mesmo ocorrerá automaticamente no Brasil. Mas a incerteza, por si só, já produz efeitos.

Bancos, fintechs, fundos de investimento e empresas de pagamentos passam a operar sob um ambiente de risco regulatório ampliado. O desafio não é apenas identificar vínculos diretos com organizações criminosas, mas compreender até onde autoridades dos Estados Unidos poderão estender suas interpretações e suas exigências de compliance.

Por isso, o debate relevante não é sobre tanques cruzando fronteiras. É sobre poder financeiro, jurisdição extraterritorial e soberania regulatória. Em um mundo no qual o dólar continua sendo a principal infraestrutura do sistema financeiro internacional, os Estados Unidos frequentemente projetam influência não por meio da força militar, mas por meio das regras que governam fluxos financeiros globais.

A designação de PCC e CV como organizações terroristas pode ajudar no combate ao crime. Mas também pode gerar novos dilemas para o Brasil. Ignorar qualquer uma dessas dimensões significa perder de vista justamente aquilo que torna o tema tão complexo.