Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Análise: IPCA-15 mostra como pressão no agro chega aos alimentos

Dados do IBGE e da Neogrid indicam que clima, custos e oferta seguem pressionando itens básicos no varejo.

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O IPCA-15 de maio, divulgado pelo IBGE, reforça um movimento que já vinha sendo percebido no varejo alimentar: a inflação dos alimentos no Brasil deixou de ser apenas uma questão de preço e passou a refletir também problemas estruturais de oferta e abastecimento. A leitura combinada dos dados do IBGE com o Índice de Ruptura da Neogrid mostra uma cadeia agroalimentar ainda pressionada por clima, custos de produção, logística e menor capacidade de recomposição de estoques.

Mesmo com desaceleração do índice cheio para 0,62%, os alimentos continuam entre os principais focos de pressão inflacionária, com alta de 1,38%. E isso aparece de forma muito clara quando os números da inflação são comparados aos indicadores de ruptura no varejo.

O caso mais emblemático é o do leite UHT. Segundo a Neogrid, a categoria registrou a maior alta de ruptura entre todos os produtos monitorados em abril, passando de 19,1% para 20,7%.

E o produto subiu 6,07% no mês passado, de acordo com o IPCA-15.

O movimento reflete uma menor oferta de leite cru, sazonalidade climática, aumento no custo da alimentação animal e pressão sobre transporte e distribuição. O resultado é uma cadeia operando com menor margem de segurança, na qual qualquer oscilação de produção gera impacto quase imediato nos preços finais.

Nesse contexto, o leite integral passou de R$ 5,45 para R$ 6,08 o litro em média no mês passado; o semidesnatado, de R$ 5,46 para R$ 6,16; o desnatado, de R$ 5,36 para R$ 6,06; e o sem lactose, de R$ 6,83 para R$ 7,47.

Os ovos mostram um cenário semelhante. Embora a ruptura tenha recuado de 27% para 25,5%, a categoria continua com o maior índice de indisponibilidade do varejo alimentar. Isso indica que proteínas básicas seguem extremamente sensíveis aos custos de produção e à dinâmica da oferta.

Em termos econômicos, é um sinal relevante porque leite e ovos são produtos de consumo essencial, com baixa capacidade de substituição pelas famílias de renda média e baixa. Quando esses itens sobem, o consumidor sente imediatamente.

Outros básicos

Por outro lado, categorias como feijão, arroz e café apresentaram melhora no abastecimento. A redução da ruptura sugere avanço das colheitas, maior previsibilidade logística e recomposição gradual da oferta. Ainda assim, os preços continuam pressionados em parte desses produtos, mostrando que a normalização da disponibilidade não significa alívio imediato da inflação.

Segundo a Neogrid, o feijão vermelho passou de R$ 12,20 para R$ 12,40 em média; o carioca, de R$ 7,96 para R$ 8,37; e o preto, de R$ 6,39 para R$ 6,62. O café em pó passou de R$ 74,82 para R$ 73,60 por quilo, enquanto o café em grãos cedeu de R$ 136,19 para R$ 133,97. Já o arroz branco subiu de R$ 4,76 para R$ 4,82 o quilo em média, e o parboilizado, de R$ 4,51 para R$ 4,60. O integral foi a única versão com queda, passando de R$ 7,19 para R$ 7,15.

Os outros indicadores de alta nos alimentos do IPCA-15, batata-inglesa (26,29%) e tomate (12,97%), têm peso muito mais moderado no orçamento familiar.

Esse descompasso entre melhora operacional e persistência dos preços revela uma característica importante do atual ciclo inflacionário brasileiro: os custos acumulados ao longo da cadeia continuam sendo repassados.

A indústria e o varejo ainda operam pressionados por despesas elevadas de transporte, armazenagem, energia e capital de giro. Além disso, muitas empresas reduziram estoques nos últimos anos para ganhar eficiência financeira, o que aumentou a vulnerabilidade da cadeia a choques de oferta.

Na prática, o que os dados do IPCA-15 e da Neogrid mostram é uma inflação cada vez mais ligada à fragilidade estrutural da oferta agroalimentar. Isso muda parcialmente a natureza do problema econômico. Diferentemente de uma inflação impulsionada pelo excesso de demanda, a inflação de alimentos atual responde mais a clima, produtividade, logística e custos operacionais. Nesse contexto, juros altos têm capacidade limitada de resolver o problema, porque o principal gargalo não está no consumo, mas na produção e distribuição.

O risco para os próximos meses permanece elevado. Caso ocorram novos eventos climáticos, pressão cambial ou alta do diesel, a inflação alimentar pode reacelerar rapidamente. A cadeia está mais enxuta, opera com estoques menores e apresenta menor capacidade de absorver choques sem repassar custos ao consumidor.