Fernanda Pressinott
Blog
Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Argentina pode ganhar mercado de farelo na Europa às custas do Brasil?

Exigências europeias de rastreabilidade podem colocar até 4 milhões de toneladas de farelo de soja brasileiro em risco, enquanto concorrente aposta em logística mais simples e sistema de monitoramento já operacional

O Brasil pode perder espaço no mercado europeu de farelo de soja para a Argentina não por falta de produto, mas pela dificuldade de comprovar a origem da matéria-prima em uma cadeia que atravessa milhares de quilômetros e diferentes modais de transporte. A partir de 30 de dezembro, as exigências do EUDR (Regulamento Europeu contra o Desmatamento) devem aumentar a pressão sobre exportadores que abastecem o bloco, criando uma oportunidade comercial para o principal concorrente brasileiro na América do Sul.

O alerta não é trivial. O Brasil responde por aproximadamente metade das importações de farelo de soja da União Europeia e exportou um volume recorde de 23,3 milhões de toneladas do produto em 2025, segundo dados citados pela Reuters e da (Fefac) Federação Europeia de Fabricantes de Ração. A entidade estima que as exigências de rastreabilidade podem comprometer até 4 milhões de toneladas dos embarques brasileiros, cerca de 17% das exportações nacionais de farelo.

O volume não representa uma perda já contratada ou confirmada. É uma estimativa de risco associada à capacidade de atender às novas exigências. Ainda assim, o tamanho potencial do problema ajuda a explicar por que a indústria argentina já se posiciona para ampliar a participação no mercado europeu.

Gustavo Idigoras, presidente da Câmara da Indústria de Óleos e Grãos da Argentina (Ciara-CEC), afirmou à Reuters que o país poderia preencher uma eventual lacuna de 5 milhões a 6 milhões de toneladas nas exportações brasileiras. A declaração expressa a expectativa do setor argentino, e não uma transferência de vendas já concretizada.

A diferença está na logística

O desafio brasileiro começa na distância entre as áreas produtoras e os portos. Em regiões do Centro-Oeste, a soja percorre mais de 2 mil quilômetros até os terminais de exportação e pode passar por caminhões, ferrovias e hidrovias antes de chegar ao destino. Cada etapa acrescenta complexidade à identificação da origem dos grãos e à separação de lotes que atendam às exigências europeias.

Na Argentina, a concentração da produção nas planícies dos Pampas e a proximidade das principais áreas agrícolas do complexo portuário de Rosário favorecem a rastreabilidade. As áreas produtoras mais relevantes ficam a até 350 quilômetros desse polo de exportação.

A diferença não significa que a produção argentina esteja automaticamente livre de riscos ambientais ou que toda a soja brasileira tenha dificuldade de comprovação. O ponto é estrutural, quanto mais extensa e fragmentada a cadeia de abastecimento, maior o esforço necessário para documentar a origem de cada lote.

Essa exigência pode transformar um custo de organização da cadeia em uma variável de competitividade comercial. Para o importador europeu, não basta encontrar farelo disponível a um preço atraente. Também é necessário assegurar que o produto cumpra a legislação aplicável e que a documentação exigida possa ser apresentada.

O que muda com a regra europeia

O EUDR exige que os produtos abrangidos pela legislação, entre eles a soja e seus derivados, atendam a critérios de origem e de diligência devida para acesso ao mercado europeu. A norma busca impedir a comercialização de produtos associados ao desmatamento ou à degradação florestal e exige comprovação documental, incluindo informações geográficas das áreas de produção.

O cronograma vigente prevê a aplicação das obrigações a partir de 30 de dezembro de 2026 para os operadores em geral, com prazo posterior para micro e pequenas empresas. As regras e seus procedimentos de implementação devem ser acompanhados de perto, porque alterações de prazo ou simplificações operacionais podem mudar o ritmo de adaptação dos fornecedores.

O efeito comercial, entretanto, vai além da data de entrada em vigor. Exportadores, esmagadoras, tradings e produtores precisam organizar informações que permitam conectar a mercadoria embarcada à sua origem. Isso exige sistemas de monitoramento, controles internos, integração de dados e capacidade de manter a rastreabilidade durante o transporte e o processamento.

A questão para o Brasil é saber em que medida essa estrutura pode ser ampliada rapidamente, sem elevar os custos a ponto de reduzir a competitividade do farelo nacional.

Argentina tenta transformar rastreabilidade em vantagem

A indústria argentina afirma estar mais preparada para atender às exigências europeias. O país conta com o Visec, sistema de rastreabilidade que acompanha soja e carne bovina desde a produção até a exportação.

Na avaliação mais recente citada pela Reuters, a Fefac classificou a Argentina como de baixo risco de interrupções de fornecimento relacionadas ao EUDR e estimou que quase toda a produção de farelo do país no primeiro semestre de 2027 poderá atender aos requisitos.

O Brasil recebeu classificação de risco médio, com obstáculos estruturais e logísticos apontados para a expansão de cadeias plenamente compatíveis com a regulamentação. Mato Grosso e outros estados produtores enfrentam desafios para ampliar a rastreabilidade em uma estrutura de abastecimento de grande escala e geograficamente dispersa.

A classificação não equivale a uma proibição de compras brasileiras, nem significa que a Argentina terá acesso irrestrito ao mercado europeu. Ela indica diferenças percebidas no risco de interrupção das cadeias de fornecimento e pode influenciar decisões de compra, planejamento de contratos e escolha de fornecedores.

Para os importadores, a previsibilidade do abastecimento também importa. Se um fornecedor consegue comprovar a origem do produto com menor custo e menor risco operacional, pode ganhar espaço mesmo quando os concorrentes têm capacidade produtiva equivalente.

O risco para o Brasil vai além da Europa

Uma eventual redução dos embarques brasileiros para a União Europeia não significaria necessariamente que o farelo deixaria de ser exportado. O produto poderia ser redirecionado para outros mercados, enquanto a Argentina ampliaria suas vendas aos compradores europeus.

Mas essa substituição não é neutra. O deslocamento de volumes pode alterar a concorrência entre fornecedores, os diferenciais de preço e os custos logísticos. Se o Brasil precisar disputar mercados alternativos com maior intensidade, poderá enfrentar condições comerciais diferentes das obtidas no mercado europeu.

O movimento também merece atenção pelo efeito sobre a indústria de processamento. A capacidade de esmagar soja e exportar farelo depende da combinação entre oferta de grãos, demanda por derivados, custos industriais e acesso aos mercados. Perder competitividade em um destino relevante pode exigir ajustes comerciais e logísticos, mesmo quando há compradores em outras regiões.

A Argentina, por sua vez, é a maior exportadora mundial de farelo de soja e embarcou cerca de 27 milhões de toneladas em 2025, segundo o Ministério da Agricultura do país. Uma parcela relevante já atende a mercados asiáticos. O redirecionamento de cargas para a Europa pode, portanto, reorganizar os fluxos comerciais entre regiões, e não apenas provocar uma troca direta entre fornecedores brasileiros e argentinos.

O desafio é transformar rastreabilidade em competitividade

Para o Brasil, o principal teste é demonstrar que consegue manter o acesso a um mercado relevante sem perder competitividade em razão dos custos de comprovação de origem. Isso exige acompanhar a implementação dos sistemas de rastreabilidade, a integração entre produtores e exportadores e a capacidade de segregar cargas que atendam aos requisitos europeus.

A questão central não é apenas se o país produz soja sem desmatamento em determinada área, mas se consegue comprovar, de forma consistente e auditável, a origem da matéria-prima que chega ao comprador europeu.

A indústria brasileira também precisa medir o custo dessa adaptação e identificar onde estão os gargalos: na coleta de informações na propriedade, na documentação dos fornecedores, na mistura de lotes, no transporte ou nos sistemas utilizados pelas empresas.