Fernanda Pressinott
Blog
Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

China reduz soja do Brasil e volta a abrir espaço para os EUA

Encontro entre os presidentes não trouxe novo pacote agrícola, mas retomada das compras americanas muda a disputa pela demanda chinesa e pode pressionar os prêmios da soja brasileira

Compartilhar matéria

O encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping terminou nesta quinta-feira (24) sem um novo anúncio de grande porte para o comércio agrícola. EUA e China decidiram estender por mais dois meses a trégua comercial que venceria em novembro, mas questões importantes, entre elas tarifas, compras chinesas de produtos americanos e barreiras comerciais, não tiveram novos detalhes divulgados após o encontro.”

Para o mercado de commodities, a ausência de novos compromissos foi relevante. A expectativa dos produtores e operadores americanos era de que a reunião trouxesse anúncios adicionais de compras chinesas de soja, milho, sorgo, trigo, carnes e outros produtos agrícolas. Os mercados de grãos reagiram justamente à falta de detalhes concretos sobre novos negócios.

A soja está no centro da disputa. A China se comprometeu a comprar pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano, entre 2026 e 2028. Segundo dados citados pela Reuters e pela S&P Global, as compras para o atual ano comercial já estão próximas de cumprir essa meta, enquanto o compromisso mais amplo de adquirir US$ 17 bilhões adicionais em produtos agrícolas americanos avança mais lentamente.

O encontro, portanto, não produziu até agora um novo volume de soja americana que altere imediatamente o mercado. Mas a manutenção dos compromissos anteriores já é suficiente para mudar o ambiente competitivo entre Estados Unidos e Brasil.

China pisa no freio nas compras brasileiras

Enquanto Trump e Xi negociavam em Washington, os compradores chineses reduziram fortemente as compras comerciais de soja brasileira.

Segundo a Bloomberg, as compras caíram para menos de cinco cargas nas duas semanas anteriores ao encontro, na comparação com uma média de 20 cargas por semana em agosto. Traders ouvidos pela agência afirmam que os processadores chineses estão enfrentando margens negativas para esmagar a soja brasileira e também aguardavam sinais das negociações entre Trump e Xi antes de fechar novos negócios.

O problema para o Brasil é que a soja brasileira perdeu parte da vantagem de preço que vinha sustentando a demanda chinesa. A soja com embarque em novembro pelo porto de Paranaguá estava sendo negociada com prêmio de US$ 1,35 por bushel sobre Chicago. Em alguns embarques, a soja brasileira já estava mais cara que a americana colocada no Golfo do México.

Há ainda uma questão de oferta. Mais de 90% da safra brasileira 2025/26 já havia sido comercializada, acima da média de cinco anos, de 88%, segundo a AgRural. Com menos soja disponível no Brasil e produtores segurando os estoques remanescentes à espera de preços melhores, o mercado brasileiro perdeu competitividade justamente quando a nova safra americana começa a chegar ao mercado.

Por que a China está comprando dos EUA?

A soja americana continua sujeita a uma tarifa chinesa adicional de 10%, além da tarifa de 3% de nação mais favorecida, totalizando 13%. Para a soja brasileira, permanece a tarifa de 3%. Mesmo assim, os estoques americanos estão aumentando com a entrada da nova safra, enquanto a soja brasileira ficou relativamente mais cara.

Além disso, empresas estatais chinesas vêm cumprindo o compromisso de aumentar as compras de soja americana. A Reuters informou que os produtores americanos pressionavam Trump justamente para que o encontro garantisse novos compromissos de compra, mas analistas ouvidos pela agência consideravam mais provável uma reafirmação dos acordos existentes do que um novo pacote de grandes compras.

Foi exatamente o que ocorreu até agora: a trégua foi prorrogada, mas não houve anúncio de uma nova grande rodada de compras agrícolas.

O que isso significa para a soja brasileira

O impacto mais imediato não é necessariamente uma queda das exportações brasileiras. É a perda de poder de barganha da soja brasileira no mercado chinês.

Durante o período de maior tensão comercial entre Washington e Pequim, a China aumentou sua dependência da soja brasileira. Agora, com a retomada das compras americanas e a entrada da safra dos EUA, os chineses têm novamente uma alternativa de abastecimento.

Isso cria uma situação diferente para o Brasil: a China continua precisando da soja brasileira, mas pode escolher melhor quando comprar e de qual origem comprar.

O movimento é especialmente importante porque os estoques americanos estão entrando no mercado no segundo semestre, enquanto a soja brasileira da safra passada está mais escassa. A própria Bloomberg destaca que os estoques dos EUA tendem a ganhar participação no mercado global no quarto trimestre.

Para os produtores brasileiros, portanto, o resultado do encontro Trump–Xi não deve ser interpretado apenas como “China comprará ou não comprará soja dos EUA”. A questão é quanto da demanda chinesa continuará direcionada ao Brasil quando a soja americana estiver disponível e competitiva.

O mercado de Chicago também mostrou que os investidores esperavam mais. Segundo a Bloomberg, os preços dos grãos recuaram após a reunião diante da falta de anúncios concretos sobre novas compras chinesas.

A próxima variável será justamente o preço relativo entre as duas origens. Se a soja americana continuar mais competitiva, a China terá menos incentivo para pagar prêmios elevados pela soja brasileira. Se os preços dos EUA subirem ou houver problemas de oferta, o Brasil volta a ganhar espaço.

Por isso, o principal efeito do encontro para o produtor brasileiro pode estar menos em um eventual “acordo agrícola” e mais na mudança da disputa pela demanda chinesa: depois de um período em que o Brasil ocupou o espaço deixado pelos Estados Unidos, os americanos estão voltando ao mercado e a China ganhou novamente uma alternativa de compra.