Fernanda Pressinott
Blog
Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Crédito trava, ativos mudam de mãos e agro caminha para maior concentração

Endividamento e juros altos reduzem o acesso a recursos, pressionam produtores e empresas a vender ativos e favorecem grupos com maior capacidade financeira

Compartilhar matéria

O produtor rural está em dívida. As empresas do agro também. E isso aparece nos dados de recuperação judicial e de taxa de inadimplência. A novidade é que, diante da falta de recursos, muitos agentes precisam vender ativos para fazer caixa.  

É o que mostrou matéria exclusiva publicada na quinta-feira pela CNN. Levantamento da KPMG mostra que os M&As (fusões e aquisições) no agro caíram em número de operações, mas aumentaram em recursos financeiros transacionados. Foram 13 operações, ante 21 no mesmo período do ano anterior, mas o valor dos negócios divulgados subiu de R$ 1 bilhão para R$ 1,9 bilhão. 

Quando a rentabilidade da produção deixa de ser suficiente para pagar o custo do financiamento, a terra e outros ativos que antes serviam para sustentar a expansão passam a ser usados para preservar a liquidez. O endividamento, então, deixa de ser apenas um problema financeiro e começa a alterar a estrutura do setor. 

Com usinas e indústrias à venda, a concentração entre os players que têm recursos, isto é, multinacionais ou empresas de grande porte, torna-se cada vez maior. É por isso que os valores das negociações são crescentes.   

As fazendas — que nem aparecem nesse levantamento da KPMG — também entram nesse movimento. Propriedades podem mudar de mãos quando produtores precisam fazer caixa, enquanto compradores com maior capacidade financeira conseguem aproveitar essas oportunidades. 

Uma propriedade adquirida com financiamento pode gerar uma receita de arrendamento equivalente a apenas 2% ou 3% de seu valor, enquanto o custo da dívida pode ficar entre 15% e 20% do valor da fazenda a depender do juro do financiamento. Quando o custo do dinheiro supera com tanta folga o retorno do ativo, manter a dívida se torna difícil de sustentar. A alternativa é vender a terra e reduzir o endividamendo. 

A alavancagem não é perdoada. O mercado financeiro sempre esteve de olho nas dívidas, mas agora, mais do que nunca, bancos, fundos e instrumentos do mercado de capitais passaram a colocar mais freios no financiamento ao agronegócio. A dívida é praticamente intolerada.  

Isso cria uma combinação particularmente difícil para empresas que precisam renovar dívidas justamente quando o acesso ao crédito fica mais restrito. Ou quando precisam de capital para começar uma nova safra como agora.  

O agro precisa de financiamento. O produtor planta hoje para colher e receber meses depois. A indústria compra matéria-prima antes de vender o produto. A empresa investe antes de capturar o retorno. O crédito, portanto, não é apenas uma ferramenta para atravessar momentos ruins. É parte da engrenagem que permite ao setor crescer. 

Sem recursos e com juros altos, o agro não perde apenas fôlego financeiro. Perde também capacidade de investir, incorporar tecnologia, aumentar produtividade e se preparar para o próximo ciclo.