Frete tabelado: governo aperta fiscalização e agro fica mais resistente
O endurecimento do governo sobre a tabela do frete, reforçado na coletiva desta quarta-feira (18) pelo ministro Renan Filho, recoloca no centro do debate uma disputa que nunca foi resolvida: afinal, quem deve definir o preço do transporte no Brasil — o mercado ou o Estado?
Ao prometer fiscalização eletrônica ampla e punições mais rígidas para quem descumprir o piso mínimo, o governo deixa claro que não apenas mantém a política criada após a crise da greve dos caminhoneiros, como pretende reforçá-la. Mas, do outro lado, o agronegócio segue reagindo com a mesma resistência de sempre.
E essa reação não é nova. O aumento do rigor na aplicação da tabela acende um alerta direto no campo. O motivo é simples e estrutural: o frete é um dos principais componentes de custo da produção agropecuária brasileira. Em um país continental, com forte dependência do transporte rodoviário, qualquer interferência nesse preço tem impacto imediato na margem do produtor e na competitividade das exportações.
Desde o início, a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) se posicionou de forma clara contra o tabelamento. À época da criação da política, a entidade foi direta ao afirmar que a medida representava uma “intervenção indevida do Estado nas relações privadas” e que a formação do preço do frete deveria seguir a lógica de mercado, baseada em oferta e demanda.
Em outra manifestação amplamente repercutida no setor, a FPA chegou a classificar a tabela como um mecanismo que “engessa o setor produtivo e compromete a eficiência logística do país”.
Essa visão continua predominando dentro do agro — e ajuda a entender por que o discurso do governo encontra tanta resistência.
Para produtores, cooperativas e tradings, o frete não é um preço qualquer: ele varia naturalmente conforme fatores como safra, distância, disponibilidade de caminhões e custo do combustível. Em períodos de colheita, quando há maior demanda por transporte, os preços sobem. Em momentos de menor movimentação, caem. É o funcionamento básico de qualquer mercado.
A tabela mínima, ao impor um piso obrigatório, rompe essa dinâmica. Na prática, pode obrigar o contratante a pagar mais mesmo quando há excesso de oferta de transporte. Para o agro, isso significa aumento artificial de custos, perda de flexibilidade nas negociações e, no limite, redução da competitividade internacional — especialmente em commodities, onde centavos fazem diferença.
Contexto de guerra
O problema se agrava no contexto atual. O diesel segue pressionado, a tabela é reajustada automaticamente com base nesses custos e agora o governo promete ampliar o monitoramento e a punição. Ou seja, o que antes já era visto como um entrave passa a ser também um risco operacional maior para empresas que atuam na cadeia logística do agro.
Do ponto de vista político, o governo sustenta que a medida é necessária para garantir renda mínima aos caminhoneiros e evitar práticas consideradas abusivas. Já o agro enxerga o oposto: uma política que, ao tentar corrigir distorções, acaba criando outras — e mais amplas.
No fundo, trata-se de um choque entre duas visões de economia. De um lado, a idea de proteção via regulação. De outro, a defesa de um mercado mais livre, com preços definidos pela interação entre oferta e demanda.
O fato é que, anos após sua criação, a tabela do frete continua longe de ser consenso. Thiago Péra, coordenador da EsalqLog, um dos idealizadores da tabela, diz que a metodologia dela está defasada.
E, com o novo movimento do governo para endurecer sua aplicação, o tema volta a ganhar temperatura. Para o agronegócio, a mensagem é clara: não se trata apenas de cumprir ou não uma regra, mas de questionar o próprio modelo.



