Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Queda de preços do atacado antecipa alívio na inflação dos alimentos

Tomate liderou queda no atacado com avanço da safra de inverno; IBGE confirmou desaceleração dos preços dos alimentos em junho

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Os preços dos alimentos começaram a dar um sinal importante de alívio em junho. E esse movimento apareceu primeiro no campo e no atacado, antes de chegar aos supermercados e, agora, à inflação oficial.

Nesta semana, a Ceagesp divulgou que o índice geral de preços caiu 1,63% em junho, revertendo a alta de 3,15% registrada em maio. Foi a primeira queda do indicador em três meses e ela veio, principalmente, por causa da melhora na oferta de hortifrúti.

O destaque foi o setor de legumes, que recuou 8,94%. E quem puxou esse movimento foi justamente o tomate. O tomate Sweet Grape caiu quase 30%, o tomate-cereja recuou quase 25% e o tomate Carmem também registrou queda, com o avanço da safra de inverno em São Paulo e Minas Gerais.Além do clima seco, que reduziu perdas nas lavouras, houve um aumento expressivo da oferta: só o volume de tomate Carmem recebido no entreposto cresceu 35,9% em um mês.

Nesta sexta-feira, os dados do IBGE mostraram que esse movimento começou a chegar ao consumidor. No IPCA de junho, o grupo Alimentação e Bebidas recuou 0,24%, depois de ter subido 1,30% em maio.

Foi a maior variação negativa entre todos os grupos pesquisados e também o principal responsável por aliviar a inflação oficial, com impacto de -0,05 ponto percentual no índice.

O resultado ajuda a explicar a desaceleração do IPCA, que passou de 0,58% em maio para 0,16% em junho.

Safra de inverno beneficia preços

A sequência dos dois indicadores mostra como o agronegócio influencia diretamente a inflação. Nos últimos meses, problemas climáticos reduziram a oferta de hortaliças e impulsionaram os preços. Agora, a entrada da safra de inverno começa a normalizar o abastecimento e a corrigir parte dessas altas.

Mas a melhora ainda não é uniforme. O relatório da Ceagesp mostra que, enquanto os legumes ficaram mais baratos, as verduras subiram 6,67%, pressionadas pelo frio intenso no cinturão verde de São Paulo. As temperaturas abaixo de 10°C retardaram o desenvolvimento das folhosas e reduziram a oferta de produtos como alface. Cebola e batata escovada também continuaram em alta no atacado.

O comportamento aparece, em parte, no IPCA. Em junho, os maiores aumentos foram registrados pelo pepino, que subiu 19,14%, seguido por morango (10,98%), feijão-carioca (8,31%), feijão-preto (7,86%) e manga (5,53%). Segundo o IBGE, essas altas refletem principalmente a menor oferta provocada por questões climáticas e pela sazonalidade das lavouras.

Ao mesmo tempo, produtos beneficiados pelo avanço da safra ficaram mais baratos. É o caso da laranja (-13,51%), melancia (-8,37%), milho (-6,27%), pescada (-5,26%) e coentro (-4,69%), reforçando que o aumento da oferta já começa a produzir efeitos sobre os preços.

Influência na inflação

O índice da Ceagesp não entra diretamente no cálculo do IPCA, mas funciona como um importante indicador antecedente para os alimentos in natura. Ou seja, ele costuma mostrar o comportamento do mercado atacadista antes que as mudanças cheguem às feiras, supermercados e, posteriormente, à inflação oficial.

Os números de junho reforçam essa dinâmica. Embora nem toda a queda observada na Ceagesp tenha sido incorporada ao IPCA, o resultado divulgado pelo IBGE confirma que a melhora na oferta agrícola começou a aliviar a inflação dos alimentos.

Ainda assim, o cenário exige cautela. Apesar da queda registrada em junho, diversos produtos continuam acumulando altas expressivas em 2026. O pepino sobe 155,47% no ano, a cenoura acumula alta de 103,14%, o tomate 82,41%, a batata-inglesa 82,11% e a cebola 53,34%.

Os dados mostram uma característica recorrente do agronegócio brasileiro: a inflação dos alimentos continua sendo fortemente determinada pelo comportamento da oferta. Quando eventos climáticos reduzem a produção, os preços sobem rapidamente. Quando a safra avança e o abastecimento melhora, como ocorreu em junho com parte dos hortifrutis, o mercado responde com uma acomodação das cotações — movimento que agora começa a aparecer também na inflação oficial.