Fernando Nakagawa
Blog
Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

Compras parceladas nos EUA: Supermercado em 4x cresce e preocupa

Pressionados pela alta dos preços e com cartões no limite, cada vez mais americanos recorrem às compras parceladas, inclusive para pagar comida

Compartilhar matéria

“A conta pode ser dividida em quatro parcelas.”

Tão corriqueira nas lojas brasileiras, a proposta começa a ser ouvida na maior economia do mundo. Sai o real, entra o dólar.

Enquanto o Brasil tem o “4x sem juros”, os Estados Unidos ouvem cada vez mais o “Pay-in-4”. É a reação de um consumidor que aprendeu a fatiar o presente para sobreviver ao futuro.

Pressionados pela inflação e juros elevados do pós-pandemia, consumidores nos EUA aderiram à mais brasileira operação de crédito: as parcelas. Installments, como dizem aqui.

A operação é conhecida como “Buy Now, Pay Later”, ou pelas quatro letras BNPL. É o bom e velho “compre agora, pague depois”.

Os números impressionam. Dados do Federal Reserve de Richmond mostram que o volume de transações das maiores plataformas que oferecem essa operação saltou de US$ 2 bilhões em 2019 para mais de US$ 70 bilhões – cerca de R$ 370 bilhões – no ano passado.

O setor cresce, portanto, a um ritmo anual superior a 20% desde a saída da pandemia.

Com esse crescimento, cerca de 15% de todos os consumidores americanos já fizeram alguma compra com pagamento parcelado.

O fim da hegemonia do plástico

Um dos símbolos do estilo de vida americano, o “american way of life”, é diminuto: mede 8,56 centímetros de comprimento por 5,4 cm de largura. O cartão de crédito é, há quase um século, uma verdadeira marca do consumo dos EUA. Mas diferentemente do Brasil não há como dividir os pagamentos no ato da compra.

Nele, as compras são feitas à vista e, eventual financiamento, ocorre depois – com o não pagamento integral da fatura. E, em tempos de juro alto, essa mecânica passou a ser encarada como um sinal de incerteza sobre o tamanho da dívida.

É aí que os surge o parcelamento na compra, e sem o cartão de crédito. Inicialmente, a operação foi desenhada por fintechs para oferecer crédito a quem não tinha histórico bancário, especialmente os mais jovens. Com uso da tecnologia, o empréstimo tinha foco em segmentos específicos do varejo. A ideia era limitar o risco.

Um jovem de 20 anos com um cartão de crédito pode usar o limite de US$ 200 para pagar a conta do bar, o streaming ou o delivery de comida. A fintech direciona, porém, a operação para compras determinadas: US$ 100 para um tênis – e só.

Pesquisas mostram que os mais jovens percebem esse parcelamento como mais transparente que o cartão. No dinheiro de plástico, o juro do rotativo é uma bola de neve composta e opaca – seja nos EUA ou Brasil.

No modelo “Pay-in-4”, há um calendário fixo de pagamentos. O consumidor sabe exatamente quando a dívida termina.

“É uma ferramenta tecnológica 'limpa'. Eu prefiro pagar US$ 25 a cada vez do que ver US$ 100 saindo de uma vez da minha conta”, disse um cliente dessa operação em estudo recente do Fed.

Muitos jovens também relatam aversão ao cartão pela lembrança dos problemas financeiros causados aos pais.

Quando o supermercado entra na conta

Em um país onde o histórico de crédito é peça fundamental para conseguir um empréstimo ou até mesmo um emprego, o score começou a ser um empecilho para muitas famílias.

A maior inflação em mais de 40 anos e a consequente alta dos juros empurraram milhões para atrasos ocasionais, gerando inadimplência e a expulsão do sistema bancário tradicional.

Para esses consumidores, o “Pay-in-4” passou a ser a única opção de crédito disponível.

Essa popularização fez crescer, ao mesmo tempo, o interesse do comércio. Assim, o parcelamento deixou as lojas de roupas, calçados e eletrônicos para ganhar praticamente toda a economia americana.

Hoje, é possível usar o “Pay-in-4” em todas as grandes plataformas de comércio eletrônico, redes de farmácias, supermercados e entrega de comida.

O que parecia ser um apoio para jovens sem histórico de crédito começa a ter contornos de bola de neve. Pesquisa LendingTree mostra que crescem os atrasos: cada vez mais clientes acumulam financiamentos simultâneos e até a comida já é parcelada.

Atualizado em março de 2026, o levantamento revelou que 41% dos usuários dos parcelamentos tiveram algum tipo de atraso no último ano — um salto considerável frente aos 34% registrados em 2024.

Além disso, um a cada quatro clientes tem três ou mais parcelamentos simultâneos. Mais grave ainda é o avanço sobre o consumo básico: 25% dos usuários já compraram alimentos parcelados e, entre a Geração Z, esse número chega a 33%.

A caça ao salário

Para sustentar o modelo, as fintechs cobram taxas dos lojistas que podem chegar a 10% do valor da compra — muito acima dos cartões tradicionais. Varejistas aceitam o custo para ampliar vendas e tentar alcançar mais clientes.

Na ponta do consumidor, a mecânica também é perversa: o sistema retira automaticamente o dinheiro da conta nas madrugadas de sexta-feira, dia em que a maioria dos americanos recebe seus salários.

Como esses pagamentos costumam ser a cada duas semanas, as fintechs seguem o “cheiro do dinheiro” e, assim, as parcelas são quinzenais – e não mensais como no Brasil.

E, se não houver saldo, a fintech avança sobre o limite da conta, disparando tarifas automáticas de US$ 35 – ou R$ 180 – e juros bancários. Em reação e no aperto, muitos clientes usam o cartão de crédito para pagar a parcela atrasada. É nesse momento que as bolas de neve se encontram e o desastre financeiro ganha escala de avalanche.

Seria tentador rotular o avanço do “Pay-in-4” como uma simples imprudência juvenil, mas a realidade é muito mais árida: o fenômeno é o sintoma, não a doença.

Em um país onde o sistema de crédito funciona como um juiz implacável e pune qualquer deslize com o exílio financeiro, muitos americanos não escolheram o parcelamento por estilo ou modernidade, mas por absoluta falta de saída.

Prensado entre uma inflação que corrói o poder de compra e bancos que fecharam as portas, o americano médio faz o que pode: “brasiliza” o orçamento doméstico para garantir o desejo e o básico, do tênis ao supermercado.

*A CNN Brasil viajou a convite da Brazil Conference

Acompanhe Economia nas Redes Sociais