Conheça John – e veja como o tarifaço ao Brasil afeta Johns e Marys nos EUA
É 1º de agosto de 2025. O alarme tocou e John abriu os olhos. Ele nem imagina, mas começará a ser impactado pelas tarifas de 50% sobre tudo que é produzido no longínquo país sul-americano

John é norte-americano, trabalha na área administrativa de uma construtora. Tem carro, paga hipoteca da bonita casa no subúrbio e investe parte da poupança na bolsa de valores. Um típico cidadão de classe média dos Estados Unidos.
Estamos na manhã de sexta-feira, 1º de agosto de 2025. Hoje, começam a vigorar as novas tarifas anunciadas pelo governo Donald Trump.
O alarme tocou, e John abriu os olhos. Ele nem imagina, mas começará a ser impactado pelas tarifas de 50% sobre tudo que é produzido no longínquo Brasil.
Com sono, vai à cozinha para o café da manhã que já será mais caro. Na mesa, o prato com ovos e bacon é acompanhado de uma grande garrafa com 89 oz de suco de laranja. Medidas imperiais confundem, mas essas tais onças fluídas equivalem a 2,6 litros. O suco é “puro e premium”, diz a embalagem.
O verso da embalagem não deixa dúvida: “Contains orange juice from Brazil”. Apenas em 2024, consumidores americanos compraram US$ 630 milhões do suco proveniente dos laranjais brasileiros, especialmente do interior paulista.
Na sequência, John tira o waffle da engenhoca que transforma um líquido esbranquiçado em uma bonita – e quente – massa assada crocante e dourada. Nos quadradinhos desse alimento que não sabe se é pão ou panqueca, despeja mel.
As abelhas que trabalharam para o doce conteúdo estavam no Brasil, no interior do Ceará. Aquela bisnaga sobre a mesa ajuda a explicar as exportações de US$ 78 milhões em mel para os EUA no ano passado.
Barriga cheia, John pega as chaves do SUV. A montadora, orgulhosamente americana, usa peças e partes de inúmeros países. Naquele modelo, o chassi e a carroceria contam com aço semiacabado produzido por brasileiros.
O Brasil, aliás, é o segundo maior fornecedor de aço para o mercado americano, e este metal é o segundo item mais exportado pelo país para os EUA. Só em 2024, foram US$ 2,8 bilhões embarcados pela indústria siderúrgica.
No caminho para a construtora, John lembra que o tanque está perto da reserva. No meio da pista expressa para o centro da cidade, uma parada. O grande tanque tem capacidade para 105 litros de gasolina. O combustível foi refinado nos EUA, mas o petróleo bruto não veio de lá.
No ano passado, o petróleo foi o principal item de exportação do Brasil aos EUA, com US$ 5,8 bilhões em óleo bruto. Este valor é mais que o triplo das exportações de outro líquido que John também considera um “combustível”: o café.
No posto, John vai se abastecer com café. Meio aguado para nossos padrões, o líquido fumegante preenche o gigantesco copo com o nome de John escrito à mão. Aquela rede de cafeterias usou grãos do Brasil, da serra capixaba.
Como segundo maior mercado da bebida no mundo, os EUA importam cerca de 35% de todo o café do Brasil. Ou seja, uma a cada três xícaras bebidas por americanos usam grãos brasileiros.
Nove horas da manhã e John finalmente chega ao escritório. Por e-mail, o pessoal do departamento de compras da construtora pede detalhes sobre a entrega de vergalhões que serão usados para levantar um novo empreendimento comercial.
O fabricante dos vergalhões é uma empresa 100% americana, mas nem toda matéria-prima que chega à fábrica na Carolina do Norte segue a regra: usam aço dos EUA, Canadá e Brasil. Em ferro fundido e outras ligas de aço, empresas brasileiras exportaram US$ 2,1 bilhões para o parceiro comercial da América do Norte no ano passado.
Se os vergalhões estão a caminho da obra, é preciso saber se as máquinas que fizeram a terraplenagem já podem ser liberadas. John verifica onde estão os grandes tratores amarelos que carregam marcas tipicamente americanas.
Os tratores de esteira e as pás-carregadoras daquela obra foram montados em solo americano, mas utilizaram peças manufaturadas pela mesma companhia no interior de São Paulo.
Em 2024, o Brasil exportou aos EUA total de US$ 520 milhões em tratores tipo bulldozer e suas partes – usados em terraplenagem – e outros US$ 502 milhões em pás-carregadoras – destinadas à movimentação de materiais como areia e pedra.
O tempo passa, o estômago ronca e John larga o trabalho para almoçar. O lugar escolhido foi um restaurante que o pessoal do escritório adora. O clima é animado, com garçonetes sorridentes, e televisores exibindo jogos de futebol americano e basquete.
John pede o clássico hambúrguer com bacon. A mistura de carne usada para o “patty” tem cortes de gado brasileiro. Aquela carne suculenta vem do interior do Mato Grosso.
Apenas em 2024, o Brasil exportou US$ 885 milhões em carne bovina congelada aos EUA - boa parte para fazer o “blend” de hambúrgueres como aquele escolhido por John.
No almoço, a gerente regional conta ao pessoal do escritório como foi a recente viagem a trabalho. Mary até poderia falar da pequena cidade no interior do Texas, mas a colega de trabalho gostou mesmo é do voo de duas horas a bordo de um avião pequeno, mas muito confortável e que não tem assento do meio. “Só janela e corredor”, conta, animada.
Era um Embraer 175, modelo que tem centenas de unidades voando no mercado americano e é o preferido para rotas regionais no país.
Os aviões produzidos em São José dos Campos compõem uma das poucas unanimidades entre todas as grandes do país e está na frota da American Airlines, Delta, United, JetBlue e Alaska. Em 2024, o Brasil exportou US$ 1,4 bilhão em aviões para aéreas norte-americanas.
Almoço encerrado, e todos voltam ao escritório porque o dia ainda está na metade. Horas passam, e o expediente cheio termina.
No começo da noite, John finalmente chega em casa. Cansado, pega uma cerveja gelada e liga a TV. O telejornal das oito da noite começa com a grande notícia das novas tarifas. Atento e preocupado, John pensa consigo mesmo: “Tomara que isso não me afete”. Tomara mesmo.



