Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

Davos 2026: Economia avança, mas a confiança global entrou em colapso

Fórum Econômico Mundial começa com claros sinais de menor cooperação no mundo após um ano da chegada de Trump à Casa Branca

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O Fórum Econômico Mundial de 2026 começa hoje sob a sombra de um grande paradoxo. Os dados “frios” mostram que o motor da economia global segue resiliente, mas o óleo dessa máquina parece estar secando.

A elite que desembarca em Davos traz na bagagem a leitura clara de que o mundo é hoje um lugar muito menos cooperativo do que há apenas um ano.

O calendário oferece uma pista óbvia para esse pessimismo. Amanhã, 20 de janeiro, marca exato um ano do retorno de Donald Trump à Casa Branca.

A presença do presidente americano — a grande atração deste ano — personifica a mudança profunda nas engrenagens globais. Mas os números do relatório do WEF revelam que o buraco é mais embaixo.

Para 85% dos membros de conselhos empresariais ouvidos pelo Fórum, há “menos” ou “muito menos” cooperação hoje em comércio e capital, bem como em inovação.

Quando o assunto é clima, o desânimo é ainda maior: 87% veem retrocesso na união global. É um banho de água fria vindo de quem decide os investimentos.

O documento oficial de Davos chama o momento de “nova era global”, marcada por fragmentação contínua, desconfiança e recorde de deslocamentos forçados.

Contudo, o relatório do anfitrião evita apontar o dedo apenas para Trump – o tão esperado convidado.

A “culpa”, segundo o texto, é de uma erosão que já dura 15 anos. Desde a crise de 2008, a insatisfação com o sistema multilateral só cresceu e foi ainda agravada por uma sequência de choques: Covid-19, guerras na Ucrânia e Oriente Médio, crise energética e protecionismo.

Apesar do diagnóstico sombrio, Davos tenta ver o copo meio cheio. A tese central não é o fim da globalização, mas sua mutação.

O relatório sugere que a cooperação não morreu, apenas ficou mais pragmática – talvez cínica: sai o sonho do mundo sem fronteiras, entra o pragmatismo com cooperação entre países e empresas “onde e quando” interessa.

É com essa promessa de um mundo menos sonhador e mais utilitário que os líderes globais tentarão, nos próximos cinco dias, encontrar saídas para crises que não respeitam fronteiras.

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