Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

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"Dízimo fiscal": Juros chegam a R$ 1 trilhão e se aproximam de 10% do PIB

Com déficit primário e Selic em 15%, conta de juros nominais dobrou em 5 anos e está em 8% do PIB

  • Imagem gerada por IA
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O Brasil acaba de cruzar uma fronteira numérica que deveria tirar o sono da sociedade: a conta de juros da dívida pública atingiu, pela primeira vez na história, a assustadora marca de R$ 1 trilhão em 12 meses.

Os dados, divulgados hoje pelo Banco Central, revelam que o país caminha na direção de armadilha financeira que consome uma fatia cada vez maior da riqueza produzida pelos brasileiros.

Para dar dimensão aos dados: R$ 1 trilhão é mais do que o dobro de todo o orçamento anual da Saúde e Educação somados.

É um dinheiro que não constrói hospitais, não equipa escolas e não melhora a educação das crianças. Só remunera quem empresta dinheiro ao Estado.

A estatística mais cruel, no entanto, surge na comparação com o tamanho da economia. O custo dos juros nominais ficou em 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

Esse foi o segundo ano seguido que a fatura gira em torno de 8% do PIB. A conta mais que dobrou em cinco anos: em 2020, a conta era de 4,1% do PIB.

Em outras palavras, caminhamos a passos firmes rumo aos 10% do PIB em pagamento de juros.

Na prática, o Brasil paga quase um “dízimo” para o setor financeiro. De cada R$ 10 gerados pela economia nacional — do agronegócio à padaria da esquina —, quase R$ 1 é destinado exclusivamente para pagar quem empresta para que o governo consiga pagar as contas no fim do mês.

Três fatores explicam por que essa fatura saiu de pouco mais de R$ 310 bilhões em 2020 para o patamar atual de R$ 1 trilhão.

A piora fiscal

Após a pandemia, as contas públicas foram atacadas de várias formas. Primeiro, ainda no governo Jair Bolsonaro, com o estouro do teto de gastos e medidas populistas, como o triplicar do valor do antigo Auxílio Brasil e a manobra para reduzir artificialmente o preço dos combustíveis.

Depois, com a chegada do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a conta continuou crescendo com a PEC da Transição, as regras mais frouxas do novo arcabouço fiscal e a continuidade do aumento de grandes gastos, como Previdência e benefícios sociais.

Quando o mercado financeiro – que é quem empresta ao governo – percebe que o risco aumenta, passa a cobrar mais juros. O dólar também reage para cima.

Isso tudo elevou a inflação e gerou o segundo motivo dessa conta trilionária.

Selic alta

Com a inflação apontando para cima, o Banco Central apertou os juros e manteve a Selic em patamar restritivo por um período prolongado. Esse é o segundo motivo da conta do trilhão.

Como grande parte da dívida brasileira é atrelada à essa taxa, juros maiores significam necessariamente mais gastos do governo.

Aí, então, aparece o terceiro motivo: a bola de neve. Como o governo não consegue pagar os juros com a arrecadação de impostos (ou seja, tem déficit primário), o Tesouro emite mais dívida para pagar os juros da dívida anterior.

É o juro sobre juro e a dívida sobre dívida operando contra a economia brasileira e o contribuinte.

O cenário exige um debate urgente. Enquanto o debate político se concentra em expansão de gastos, a “linha de baixo” da planilha — os juros — segue crescendo de forma silenciosa e voraz.

Sem um choque de credibilidade fiscal que permita a queda estrutural das taxas de juros, o Brasil continuará trabalhando para sustentar um passivo que cresce mais rápido que a própria economia.

O trilhão não é apenas um recorde; é o sintoma de um país que gasta muito e mal.

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