O bicho-papão de Trump mora nos postos de gasolina
Presidente dos EUA classificou alta de quase 20% da gasolina como "pequeno contratempo", mas petróleo a US$ 100 mostra que problema vai crescer rapidamente

Donald Trump classificou a disparada da gasolina na primeira semana de guerra no Irã como um "pequeno contratempo". Mas o que o presidente tenta minimizar cresce no ritmo das cotações do barril: o petróleo atingiu US$ 90 na sexta-feira e abre a semana rompendo a barreira dos US$ 100.
Os números da inflação não têm ideologia. O que Trump rotula como "detalhe" é, na verdade, o mesmo bicho-papão que corroeu a popularidade dos democratas e pavimentou o seu próprio retorno à Casa Branca.
Agora, o feitiço ameaça virar contra o feiticeiro.
Na primeira semana do conflito, o susto foi explícito. Em estados como Califórnia e Nevada, o preço do galão saltou quase 20%.
Se isso é um "contratempo", é um daqueles que atinge diretamente o sistema nervoso central do eleitor americano: o bolso.
Diferente do preço de um microprocessador ou do minério de ferro, a gasolina é anunciada em letreiros gigantes em cada esquina. É o índice inflacionário mais visível do planeta.
Os EUA são um país que anda sobre quatro rodas. Quando o combustível sobe, o custo de vida acelera junto. Não é apenas o tanque do SUV. É o frete do leite, o custo da logística industrial e o bilhete do transporte público.
A história econômica é cíclica e, muitas vezes, irônica. Os democratas perderam o controle da narrativa quando insistiram que a inflação era "transitória" (o fatídico termo usado pelo Fed). Trump voltou ao poder criticando justamente a incapacidade de Joe Biden em domar os preços.
Se o petróleo continuar em sua trajetória de recordes — e o cenário geopolítico não indica nada diferente, o tal "contratempo" deixará de ser um detalhe técnico para se tornar o principal cabo eleitoral da oposição.



