Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

Surge no governo um novo “petróleo é nosso” com diesel e gás de cozinha

Guerra e eleições reforçam discurso da autossuficiência em combustíveis; plano passa por reestatização de refinaria e investimentos da Petrobras

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A guerra e as eleições parecem ter criado o ambiente para que o Brasil volte a ter uma espécie de discurso do “petróleo é nosso”. Já autossuficiente em óleo cru, o discurso que vem do Palácio do Planalto foi alterado e agora mira três derivados: diesel, gás de cozinha e gasolina.

Nos últimos dias, dois dos principais nomes da área energética brasileira deixaram claro que, agora, a prioridade do governo é a busca por autossuficiência com o argumento da proteção do consumidor final.

A mudança de discurso começou a ser descortinada há uma semana, quando Magda Chambriard, presidente da Petrobras, prometeu durante o CNN Talks que o Brasil terá, em cinco anos, 100% da oferta de diesel produzida no Brasil.

Hoje, Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, reforçou o discurso e indicou que esse desejo é ainda mais amplo, e inclui o gás de cozinha e a gasolina.

“Nós queremos ser autossustentáveis. Hoje, importamos em torno de 27% do consumo do diesel. Não faz sentido o Brasil ser exportador de petróleo e importador de diesel”, disse o ministro em painel durante a Latam Energy Week.

“Temos que ser autossuficientes, senão a gente fica dependendo de uma guerra que não depende de nós”, completou, ao lembrar que esses preços – especialmente do gás de cozinha – afetam especialmente os mais pobres.

Para atingir esse objetivo, o governo tem uma série de alternativas à frente. Uma delas – e a mais polêmica – é a reestatização da refinaria de Mataripe, na Bahia, que foi privatizada no governo Jair Bolsonaro.

Segundo Silveira, a Petrobras e o fundo árabe Mubadala, que controla a instalação, conversam “há anos” sobre a recompra da refinaria pela estatal brasileira. O ministro disse que a conversa ainda não chegou a um bom termo para as duas partes e, por isso, a reestatização ainda não foi concluída.

Sobre a refinaria de Manaus, controlada pelo grupo Atem, Silveira não descartou eventual conversa para eventual reestatização.

Com ou sem novas refinarias, Chambriard anunciou na semana passada que o próximo plano estratégico da Petrobras também terá a intenção de ampliar a capacidade de refino para atender 100% da demanda brasileira em diesel.

A meta deve ser alcançada, segundo Chambriard, com a ampliação de instalações existentes sem a necessidade de construção de uma nova refinaria.

Além da reestatização e da ampliação da capacidade das atuais plantas, o governo também trabalha com a mudança na mistura do combustível vendido no Brasil.

Na gasolina, Silveira anunciou nesta quarta-feira no Rio de Janeiro que pretende ampliar a mistura do etanol à gasolina para a 32% - dos atuais 30%. A mudança, que reduz a demanda pelo combustível fóssil, deve ser anunciada ainda este trimestre.

Embalado em uma retórica de proteção ao consumidor, o discurso de Brasília impõe um desafio complexo à governança da Petrobras e ao equilíbrio fiscal. A busca pela autossuficiência não é apenas uma meta energética ou logística, é uma escolha política de alocação de capital.

Um sinal dessa escolha política é a intenção – confirmada por Silveira – de que o governo quer voltar à distribuição de combustíveis após a privatização da BR Distribuidora no governo Bolsonaro.

Essa foi, disse o ministro, acontecerá respeitando os contratos que preveem que a estatal não pode voltar a esse mercado até 2029. Depois dessa data, se depender do governo Lula, a Petrobras voltará a vender diesel, gasolina e gás de cozinha ao consumidor final.

Ao priorizar o refino, possibilidade de reestatização e volta à distribuição, o governo poderá testar a paciência do mercado e a viabilidade econômica de um modelo que flerta com o passado para tentar, em tese, garantir um futuro menos vulnerável às ondas de choque internacionais.

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