Do 100km/h à air fryer: como o mundo tenta contornar a crise do petróleo
Autoridades de todo o planeta têm anunciado medidas para conter disparada do preço dos combustíveis; planos têm medidas pragmáticas e criativas

Governos de todo o mundo correm para tentar amenizar o impacto da disparada do preço do petróleo. Da caixa de ferramentas das autoridades, há desde medidas tradicionais de socorro financeiro à criatividade que mexe diretamente na rotina das pessoas. Com preços na altura, vale até trocar o fogão pela air fryer para reduzir a demanda por gás e petróleo.
A primeira linha de defesa tem sido o subsídio direto e o controle de fluxo. A Austrália, por exemplo, adotou um modelo de subsídio às refinarias que flutua conforme a cotação do barril. A medida tenta amenizar o repasse de preços ao consumidor.
A medida australiana é comparável à redução de impostos federais anunciada no Brasil. Por aqui, houve redução do PIS/Cofins e também está sendo oferecido um subsídio para a comercialização de diesel de uso rodoviário. A medida beneficia produtores nacionais ou importadores.
A China, com seu poder centralizador, foi mais drástica para tentar ampliar a oferta no país: emitiu uma ordem que proíbe as exportações das refinarias para garantir que cada gota de diesel e gasolina produzida em solo chinês fique por lá. É o nacionalismo energético em sua forma mais pura.
O Brasil não restringiu os embarques, mas impôs uma alíquota de 12% de imposto de exportação sobre o petróleo.
Enquanto a Ásia se fecha, na América do Norte a estratégia é ampliar a oferta. Nos Estados Unidos, o governo age em duas frentes. O governo Donald Trump autorizou o transporte naval por navios estrangeiros e, assim, suspendeu temporariamente uma regra com mais de um século de vigência, criada em 1920.
Além disso, de forma surpreendente, a Casa Branca flexibilizou a compra de petróleo de países sob sanções, como Rússia e Irã. O objetivo é claro: ampliar a oferta, não importa de onde ela venha, para tentar baixar o preço do galão nas bombas.
Pé no freio e home office
Em países mais dependentes do combustível importado, as medidas são mais dramáticas. Nesse grupo, a ideia principal é reduzir o consumo.
No Paquistão, o governo reduziu a velocidade máxima em todas as rodovias. Nas maiores estradas, o limite caiu de 120 km por hora para 100 km/h. Estudos indicam que reduzir a velocidade em 10 km/h pode reduzir o consumo de combustível do veículo entre 5% e 10%.
O governo paquistanês também decidiu pela volta das aulas remotas nas escolas e o retorno da semana de trabalho de quatro dias. Por lá, as importações representam cerca de 80% de tudo o que o país consome de petróleo, gasolina e gás.
Nas Filipinas, o home office obrigatório uma vez por semana virou uma nova determinação de emergência para o setor público. Mais de 95% dos derivados de petróleo são importados no país.
Na Índia, em meio aos rumores de falta de gás de cozinha, o governo determinou que a prioridade total para o GLP é o uso residencial. Assim, a oferta de gás para a indústria e o comércio fica em segundo plano para evitar uma crise de segurança alimentar.
Na imprensa local, já há relatos de vários restaurantes que começaram a restringir o cardápio para racionar gás.
Rodízio de carros e air fryer
A AIE (Agência Internacional de Energia) defendeu na semana passada que a solução não passa apenas por encontrar mais petróleo, mas por usar menos. Para isso, sugeriu dez medidas que deveriam ser adotadas por governos em todo o mundo.
"As medidas de controle da demanda disponíveis para governos, empresas e famílias abrangem transporte rodoviário, viagens aéreas, culinária e indústria, em meio a tensões nos mercados de diesel, querosene de aviação e GLP", cita o documento divulgado na sexta (20).
Entre as medidas, a entidade sugere trocar o fogão a gás por outras maneiras de cozinhas, como fogões elétricos, microondas ou air fryer. Tudo para usar menos os derivados de petróleo.
A AIE também defende o amplo incentivo ao home office, redução de velocidade nas rodovias, adoção de restrição à circulação de carros nas grandes cidades – como o rodízio de São Paulo e Santiago do Chile – além do incentivo ao uso de transporte público e compartilhamento de veículos.
A agência sugere ainda evitar viagens aéreas. "Reduzir voos a negócios pode aliviar rapidamente a pressão sobre o mercado de combustível de aviação".



