Enel SP gastou 22% menos em pessoal e materiais que previsto pela Aneel
Relatório da agência reguladora mostra que a empresa tem o 4º pior patamar de investimento do Brasil

A ventania é apontada como causa da crise elétrica na Grande São Paulo. O clima extremo, de fato, prejudica o serviço. Dados financeiros, porém, podem explicar as razões estruturais do problema.
A Enel São Paulo gastou 22,3% menos que o previsto em pessoal, materiais e serviços nos últimos 12 meses e investiu abaixo do observado em distribuidoras vizinhas. O resultado dessa conta é comemorado pelos acionistas: se há menos despesa, sobra mais lucro.
Em nota ao CNN Money, a Enel afirma que, desde 2019, vem aumentando os aportes com pessoal, materiais e serviços.
"Na média, esses custos ficaram em R$ 2,6 bilhões, de 2019 a 2025, patamar 30% superior aos valores realizados pelo controlador anterior da concessão", afirma a nota.
"Considerando as rubricas Pessoal, Materiais e Serviços (PMS), mais apropriadas para análise da relação prestação de serviço e qualidade do fornecimento, entre 2018 e 2024, os gastos de PMS da Enel São Paulo cresceram 34%", pontua.
A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) monitora os principais indicadores financeiros das distribuidoras. Como regulador, a Aneel acompanha os dados para monitorar a situação do setor e mensurar custos que serão repassados ao consumidor na conta de luz.
A análise desse relatório revela que a Enel SP opera com eficiência financeira agressiva.
Em 12 meses até setembro de 2025, a Enel SP gastou R$ 3,056 bilhões em pessoal, materiais, serviços e outros – indicador que usa a sigla PMSO. O valor é 22,3% inferior ao estimado pela Aneel, que previa R$ 3,933 bilhões no mesmo período.
A Aneel projeta o gasto PMSO como o necessário para manter o serviço de pé e repassa o custo para a tarifa paga do consumidor. Esse valor é, efetivamente, pago na conta de luz pelos clientes. Mas quando a distribuidora gasta menos que o estimado pelo regulador, a diferença vira lucro.
Segundo a Aneel, a Enel SP gastou R$ 877 milhões menos que o previsto em pessoal e materiais nos últimos 12 meses.
Para entender essa decisão, é só olhar para o recreio de uma escola.
É como se a estimativa da Aneel fosse o dinheiro dado pela mãe ao filho. Ele recebe o dinheiro para o lanche, mas gasta menos e embolsa o troco. O problema é saber se, com a escolha, a criança ficou com fome. No caso da energia, a dúvida é óbvia: o valor foi suficiente para levar a energia aos consumidores?
Entre as 51 distribuidoras acompanhadas pela Aneel, a Enel SP aparece como a 9ª que mais cortou gastos e acumula despesa abaixo do estimado pelo regulador.
A redução da despesa da Enel – de 22,3% - é muito maior que a média de 3,8% de todas as distribuidoras do Brasil. Ou seja, a empresa tem sido mais agressiva na redução dessas despesas.
Ranking do investimento
Outro indicador monitorado pela Aneel trata do investimento. A agência calcula quanto as distribuidoras investem e comparam com a depreciação da própria rede.
É como comparar os gastos de um motorista com a manutenção de um carro, e se esse valor consegue compensar o envelhecimento das peças e do veículo.
Nesse indicador, a Enel SP aparece com 71,9%. Entre 51 empresas, a distribuidora que atende a capital paulista apresenta o 48º melhor resultado. Ou, se você preferir, o 4º pior indicador do Brasil.
No ranking, a empresa só está à frente de distribuidoras em Roraima, Amazonas e a Light, que está em recuperação judicial.



