Flavio não empolga Davos, que ainda sonha com Tarcísio e até cogita Ratinho
Eleição lidera interesse dos estrangeiros; brasileiros indicam chance próxima de 50/50 de vitória para Lula ou oposição, com leve vantagem do petista

A primeira pergunta que qualquer estrangeiro faz aos brasileiros em Davos é sobre a eleição de 2026. A resposta, porém, começa invariavelmente por quem não está no centro do palco.
As conversas com CEOs, banqueiros e grandes lideranças empresariais sinalizam uma espécie de “pragmatismo cético” dos brasileiros.
O sonho político ouvido nos Alpes esbarra na “matemática do ódio” da vida real. Já a realidade com os pré-candidatos traz mais dúvidas do que certezas.
A preferência da Faria Lima e do PIB presente em Davos é inequívoca: Tarcísio de Freitas. O governador de São Paulo é visto como uma oposição séria e gestor capaz de arrumar a casa.
Mas a chance de uma candidatura é vista, hoje, como cada vez mais remota.
Aos estrangeiros, os brasileiros têm tido trabalho para explicar o porquê. A lógica não é administrativa ou política, é de grupo.
A explicação ouvida segue a linha: se Tarcísio sair candidato contra a vontade do clã Bolsonaro, recebe o carimbo de "traidor". E, na calculadora política, isso traria mais perdas que vitórias na eleição.
O governador ganharia votos do centro, mas perderia maciçamente a base fiel bolsonarista. Mais do que não votar, o bolsonarismo raiz trabalharia ativamente contra Tarcísio, tirando mais votos dele do que, talvez, a oposição a Lula conseguiria atrair de indecisos.
A porta não está fechada, mas o otimismo com o nome do governador diminuiu.
Se Tarcísio é desejo, Flávio Bolsonaro é a realidade que se impõe nos números. Os empresários reconhecem: as últimas pesquisas mostram uma competitividade do senador muito acima do esperado.
Contudo, não há brilho nos olhos, nem empolgação em Davos.
Há dúvidas reais sobre a habilidade executiva de Flávio para gerir o governo, o Congresso, lidar com a Justiça e ainda tocar a economia. Há, ainda, o temor de que o filho se perca nas confusões de Jair Bolsonaro, contaminando o ambiente de negócios.
Apesar do quadro político turvo — com apostas hoje em 50/50, mas com alguma vantagem para a reeleição de Lula —, o empresariado não parece estar em pânico em Davos. E os recordes na bolsa comprovam isso.
Diante do impasse “Lula forte vs. Flávio incógnita vs. Tarcísio ausente”, um fenômeno curioso: o nome de Ratinho Júnior aparece com mais frequência nas mesas de Davos do que nas rodas de conversa em São Paulo ou Brasília.
Para parte do empresariado, ele surge como um “plano B” viável, alguém que corre por fora, sem a rejeição imediata dos polarizados.
A grande dúvida da economia
Quando a conversa vira economia pura, o ceticismo impera. Os estrangeiros querem saber: "Como o Brasil vai resolver o fiscal?".
A resposta dos brasileiros tem sido de uma franqueza brutal: ninguém sabe.
O consenso em Davos é que nenhum dos candidatos – seja Lula, Flávio ou Tarcísio – vai tratar o ajuste fiscal com a seriedade necessária.
Lula já indicou que não encara o tema como urgente. E há dúvidas se a oposição teria capital político e vontade para impor austeridade impopular em um país dividido.
Apesar desse diagnóstico, todos concordam que qualquer que seja o vencedor – Lula ou oposição – um ajuste fiscal terá de ser anunciado. Isso porque o Orçamento de 2027 já indica estrangulamento das despesas obrigatórias que passariam a tomar 100% do dinheiro disponível.
Talvez o pânico ainda não tenha se instalado diante de uma boia de salvação que não vem da política, mas da política monetária.
A aposta é que o ciclo de queda de juros nos Estados Unidos e no Brasil pode criar um refresco na economia. Isso deve permitir que a economia real respire e até cresça, mesmo com a taquicardia dos mercados a cada nova pesquisa eleitoral.



