Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

COP30

Análise: COP30 mostra que o mundo precisa vender veneno para pagar antídoto

Belém não alcança consenso para combustíveis fósseis; Brasil da energia verde e Margem Equatorial resumem contradição climática e econômica

Vista feita de drone, desde a Ilha do Combu, com a cidade de Belém ao fundo, onde ocorre a COP30  • Alex Ferro/COP30
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Os combustíveis fósseis drenaram parte do capital político da presidência brasileira nos últimos meses, mas o esforço diplomático esbarrou na dura realidade econômica.

Em Belém, o recado foi claro: o mundo ainda não está pronto para desligar as máquinas que nos trouxeram até aqui. E, assim, a COP30 explicitou que a transição energética continua refém do dinheiro do petróleo.

Para compreender esse impasse global, não é necessário olhar para longe. Basta examinar o quintal – ou melhor, o mar – do anfitrião. O Brasil de 2025 encarna, com precisão cirúrgica, as contradições do planeta Terra.

Nas últimas duas semanas, diplomatas brasileiros agiram como nunca para costurar um compromisso de redução da dependência fóssil.

O argumento era claro: essa é a energia que mais polui, e uma transição desordenada será infinitamente mais cara e instável do que um declínio planejado. A ministra Marina Silva liderou o discurso, tentando vender a ideia de que a “ordem” no abandono do petróleo é tão vital quanto o abandono em si.

No entanto, a proposta naufragou nas salas de reunião bem refrigeradas de Belém. E a ironia é que os argumentos usados pelas potências globais para derrubar o plano são os mesmos ouvidos nos corredores de Brasília para defender a exploração da Margem Equatorial.

O governo Lula vive esse dualismo, essa incongruência: advoga pela descarbonização no palco, mas, na prática, segue com o petróleo como uma prioridade nos bastidores e principalmente nas contas.

A exploração de novas fronteiras de óleo e gás não é apresentada como um projeto de futuro, mas como uma necessidade fiscal — uma "vaca leiteira" indispensável para financiar a própria revolução verde.

A lógica do “mal necessário” prevaleceu. Sem os royalties do petróleo, argumentam os pragmáticos de Brasília, não há capacidade econômica para subsidiar eólicas, solares ou hidrogênio.

Ao final, a COP30 expôs a realpolitik climática.

O Brasil defendeu a necessidade urgente de um antídoto para a febre do planeta. É um remédio amargo e caríssimo. E o mundo respondeu a esse plano: a única forma para pagar a conta é continuar vendendo o veneno.