Gabriel Monteiro
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Gabriel Monteiro

Formado em jornalismo. Especializado em economia e negócios. Traduz o mercado e empresas. Gosta de gente e quadrinhos.

Bancos centrais temem aumento da inflação com investimentos em IA

Big techs atualizam gastos com IA nesta semana, enquanto Fed mede impacto sobre inflação e juros

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O alto investimento em inteligência artificial não é uma preocupação isolada das big techs e de seus investidores.

Há um risco de que os bilhões destinados ao desenvolvimento de softwares, à construção de data centers, à fabricação de chips e à exploração de minerais críticos pressionem a inflação nos Estados Unidos e, em alguma medida, no restante do mundo.

A discussão deve ganhar força nesta semana. O Fomc (Comitê de Mercado Aberto, o Copom do Federal Reserve) anuncia na quarta-feira (29) sua nova decisão de política monetária, enquanto algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo divulgam seus resultados.

Meta, Microsoft, Amazon, Apple, SK Hynix e Qualcomm estarão entre as companhias acompanhadas pelo mercado. Além dos números de receita e lucro, investidores vão olhar para as projeções de gastos com IA.

A corrida coloca investidores e bancos centrais diante de preocupações diferentes. O mercado teme que parte do dinheiro investido não dê o retorno prometido. As autoridades monetárias tentam medir quanto custará para a economia construir a infraestrutura necessária para que a produtividade prometida apareça.

O alerta aparece na ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve, realizada em junho. O documento mostra que os integrantes do Fomc enxergam o atual ciclo de investimentos como um fator capaz de elevar a inflação americana no curto prazo.

Esses fluxos de capital ampliam a demanda por equipamentos tecnológicos, eletricidade, softwares, insumos e serviços. O resultado pode ser uma pressão sobre os preços dos bens, sobre o custo da energia e sobre os setores que atendem à expansão dessa infraestrutura.

Um relatório da BloombergNEF estima que os data centers poderão quadruplicar o consumo de eletricidade até 2035 e passar a responder por um quinto de toda a energia gerada nos Estados Unidos.

A inteligência artificial foi citada pela equipe técnica do Fed como um dos motivos para a revisão para cima da projeção de inflação deste ano e do próximo, ao lado da alta da energia e de outros efeitos da guerra no Oriente Médio.

A preocupação não está apenas nos preços de chips ou de eletricidade. O Fed avalia que o investimento empresarial em IA pode ajudar a manter a economia crescendo acima de seu potencial. Nesse cenário, a demanda avança mais rapidamente do que a capacidade de oferta, tornando a inflação mais persistente.

Segundo Ted Pick, presidente-executivo do Morgan Stanley, a estimativa para os gastos com data centers em 2026 subiu de US$ 575 bilhões, no fim do ano passado, para cerca de US$ 850 bilhões.

O banco estima que o volume de investimentos relacionados à inteligência artificial possa chegar a US$ 10 trilhões ao longo dos próximos anos.

O risco já entrou no debate sobre política monetária. A ata mostra que, em um cenário no qual a demanda associada à IA mantenha a inflação elevada, um novo aperto dos juros pode ser necessário para levar o índice de preços de volta à meta de 2%.

Brasil

A IA também é acompanhada pelo presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo. Em evento realizado em São Paulo na última sexta-feira (24), ele disse que a tendência da trajetória da inflação no longo prazo orbita o tema.

Uma das teses é que a IA seja inflacionária durante sua fase de construção, devido ao volume de investimentos e ao aumento da demanda, mas passe a exercer um efeito desinflacionário quando os ganhos de produtividade começarem a aparecer.

Outra hipótese é que a tecnologia continue produzindo pressão sobre os preços mesmo depois de amadurecer. A operação desses sistemas exige grande volume de capital, chips, infraestrutura, energia e profissionais.

Caso esses custos permaneçam elevados, parte dos ganhos de eficiência pode ser absorvida pela própria manutenção da tecnologia.

Porém, Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren, avalia que os investimentos em tecnologia aumentam os custos das empresas e podem ser repassados ao consumidor, principalmente em momentos de atividade econômica mais forte.

O efeito pode aparecer na própria composição dos índices de inflação. Novos serviços digitais passam gradualmente a fazer parte dos hábitos de consumo das famílias e, posteriormente, das pesquisas usadas para calcular os índices de preços.

Foi o que ocorreu com plataformas de streaming e serviços de transporte por aplicativo. Angelo diz que a inclusão desses itens provocou aumento nas leituras do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Em uma próxima atualização da cesta do índice de preços, assinaturas de ferramentas de inteligência artificial, serviços de nuvem e outros produtos digitais podem ganhar espaço, segundo a especialista.

Quando serviços com preços relativos mais altos ou reajustes mais persistentes ganham peso, o IPCA passa a refletir com maior intensidade o comportamento desse grupo.

“Talvez, depois de muito investimento em tecnologia, seja necessária menos mão de obra e isso vire uma deflação. Mas estamos em um momento globalmente muito diferente disso. Ainda é uma fase de muito investimento em tecnologia", conclui a economista.

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