Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem mestrado pela Université de Paris.

Crédito restrito impulsiona tratores menores na Agrishow

Fabricantes priorizam tratores mais simples e ajustam lançamentos, enquanto máquinas de alta tecnologia avançam de forma seletiva

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Em um cenário de crédito mais restrito, juros elevados e produtores mais cautelosos para investir, fabricantes de máquinas agrícolas mantêm o ritmo de lançamentos na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP).  A estratégia, contudo, sofreu ajustes como uma tentativa de auxiliar o setor a atravessar o momento de maior pressão.

Na prática, isso tem se refletido em uma demanda maior por tratores mais simples e de menor potência, enquanto equipamentos mais sofisticados, com maior porte e tecnologia, seguem avançando de forma mais seletiva.

A Massey Ferguson, do grupo AGCO Corporation, por exemplo, revisou para baixo suas expectativas para o setor, com uma estimativa de queda de até 8% nas vendas de máquinas agrícolas novas.

A Case IH, da CNH Industrial, por sua vez, acompanha a estimativa de redução de 5% da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

“Mas não vamos reclamar do que é igual para todo mundo”, afirmou Paulo Arabian, vice-presidente de Vendas da Case IH para América Latina, ao citar fatores como juros altos, aumento dos custos de combustíveis e insumos e preços mais baixos de commodities.

Apesar do ambiente, a empresa alcançou um crescimento de 6% nas vendas em 2025, mesmo com um mercado que, segundo o executivo, teve retração superior a 10%.

Para 2026, a expectativa é de estabilidade. “A gente não está falando de crescimento este ano, mas sim de pelo menos ter o volume e resultados do ano passado. Já seria, para o momento atual, um desafio muito grande”, disse.

Ainda assim, ele reconhece a possibilidade de queda de volume, enquanto a companhia busca manter receita e resultados. No portfólio, Arabian descreveu movimentos distintos.

Em colheitadeiras, há maior demanda por modelos mais sofisticados, com tecnologia que melhora a eficiência em janelas curtas de colheita.

Já no segmento de tratores, o comportamento é diferente. “O ticket médio vem se concentrando em tratores com faixas de potência menores”, disse.

De acordo com Arabian, máquinas de até 140 cavalos, antes mais limitadas em aplicação, passaram a ganhar eficiência e atender a uma gama maior de atividades, o que reforçaria sua atratividade em um ambiente de crédito mais restrito.

Assim, o retorno das companhias tem acontecido nas pontas do mix de produtos, com as opções mais baratas e as de custo mais elevado e maior tecnologia agregada.

Para os próximos anos, a companhia vê possibilidade de melhora gradual. “Com a queda prevista de taxa de juros, o ano de 2027 já mostra uma perspectiva de melhoria em relação aos últimos quatro anos e que traga uma tração desse processo recessivo, porque a base baixou demais, então a recomposição da base passa por um gradiente transitório”, afirmou.

Segundo ele, também contribui a perspectiva de recomposição de parte do caixa dos produtores com a comercialização das “supersafras” de soja e milho.

Já a Massey Ferguson também destacou o ambiente global para o setor. O vice-presidente sênior da AGCO e gerente geral da marca, Luis Felli, afirmou que a “situação do agro mundial é super desafiada, com juros altos, custos de energia e de insumos.”

Segundo ele, a empresa mantém o ritmo de investimentos, destinando cerca de 5% do faturamento global para a área, além de aportes de US$ 2,5 bilhões em tecnologia nos últimos dois anos. “Nunca lançamos tantos produtos”, afirmou.

Ainda assim, a companhia reconhece a desaceleração recente do mercado, embora ressalte que os níveis seguem elevados em termos históricos. Em coletiva, a avaliação foi de que a queda faz parte do ciclo e reforça a expectativa de retomada.

Nesse contexto, a Massey Ferguson tem ajustado sua estratégia de lançamentos. Após anos com foco em máquinas de maior porte, a empresa apresentou tratores menores e menos potentes, voltados à agricultura familiar, com proposta de maior simplicidade e menor custo de aquisição. Ao mesmo tempo, lançou também seu maior trator, direcionado a produtores de maior escala.

O vice-presidente para a América Latina, Rodrigo Junqueira, afirmou que o comportamento acompanha o momento do setor. “Assim como o produtor continua produzindo, embora esteja com margens pequenas, assim será para as companhias do setor de máquinas: operar, mas com margens comprimidas”, disse.

Ele acrescentou que o setor atravessa um período de incerteza, mas com visão de longo prazo. “Vemos a indústria com bastante dúvida e questionamento. Mas a gente vê o filme, não a foto”, afirmou.

Em 2025, a New Holland, também do grupo CNH, alcançou o recorde da companhia em vendas dos tratores de até 100 cavalos, com 31,4 mil unidades comercializadas. Segundo a empresa, a expectativa é de manutenção desse patamar no próximo ano.

De acordo com Eduardo Kerbauy, vice-presidente de marketing da CNH para a América Latina, o desempenho dos modelos de menor potência é citado como um dos pontos de sustentação dentro do portfólio, “para mostrar partes que vão bem, obrigado”.

No segmento geral de tratores, a projeção é de queda de 5% em 2026 na comparação com 2025, quando foram vendidos 46,7 mil unidades.

Já no mercado de colheitadeiras, a empresa prevê retração entre 5% e 10% nas vendas em 2026 frente a 2025, ano em que foram comercializadas 3.300 máquinas. Em anos de maior volume, como 2013 e 2021, o total de colheitadeiras vendidas superou 8 mil unidades.