Defensivos voltam a crescer em 2027, mas com mercado mais chinês
Demanda deve avançar no próximo ano, mas recuperação mais consistente depende da melhora financeira dos produtores e se concretizar a partir da safra 2027/28

O setor de insumos agrícolas deve começar a apresentar sinais mais consistentes de recuperação em 2027, à medida que a estabilização das margens dos produtores rurais permita a retomada dos investimentos nas lavouras. A melhora, inicialmente observada nos segmentos de fertilizantes, também deve alcançar o mercado de defensivos químicos, embora em ritmo mais gradual e em um ambiente de concorrência crescente com empresas chinesas.
O ano de 2026 deve ser “razoável” para os segmentos de fertilizantes e sementes, com perspectivas mais favoráveis para 2027, segundo o analista de insumos do Rabobank, Bruno Fonseca. Já os defensivos químicos e biológicos tendem a acompanhar esse movimento com algum atraso. Uma recuperação mais ampla do setor de insumos pode ganhar força a partir do fim da safra 2027/28, caso as margens dos produtores permaneçam em níveis estáveis.
O banco projeta que o mercado total de defensivos químicos e biológicos movimente US$ 20,4 bilhões em 2026, crescimento de 1% em relação a 2025. Para 2027, a estimativa é de US$ 20,9 bilhões, avanço de 2,7%.
A expectativa do banco holandês é de crescimento gradual, impulsionado pela retomada das aplicações nas lavouras. Durante o período de maior restrição financeira, produtores reduziram aplicações e buscaram alternativas mais baratas para controlar pragas e doenças. Com uma situação financeira mais estável, a tendência é de retomada dos investimentos no manejo das lavouras.
"A gente vê que o mercado de químico vai continuar crescendo, porque o produtor vai melhorar o controle. Neste ano, ele segurou um pouco mais, mas, no ano que vem, deve voltar a investir com a margem mais estável", disse.
A recuperação da demanda, porém, não significa necessariamente uma melhora equivalente nos resultados das empresas. A concorrência crescente, especialmente com fabricantes chineses, tem alterado a dinâmica de preços e participação no mercado brasileiro, com o aumento da oferta de produtos pós-patente, geralmente comercializados a preços mais baixos.
Companhias do setor
Segundo o analista, parte das companhias tradicionais ainda enfrenta os efeitos da crise de estoques de 2024 e da queda subsequente das receitas, em um movimento agravado pela restrição financeira dos produtores. Com menos recursos disponíveis, os agricultores passaram a priorizar produtos de menor custo, favorecendo fornecedores de defensivos pós-patente.
O movimento deve ganhar força nos próximos anos, na avaliação do analista. A expansão das companhias chinesas não se restringe aos defensivos agrícolas e também avança em outros segmentos do agronegócio, como o de máquinas e equipamentos.
A pressão competitiva ocorre em um momento de resultados mais fracos para algumas das principais companhias globais do setor. No terceiro trimestre de 2026, a divisão de ciências agrícolas da alemã Bayer registrou Ebitda antes de itens especiais de 101 milhões de euros, queda de 41,3% em relação ao mesmo período de 2025. Na Basf, as vendas da divisão agrícola recuaram 19,7%, para 1,4 bilhão de euros.
A FMC, uma das maiores empresas globais de ciências agrícolas, registrou prejuízo líquido de US$ 2,07 bilhões no trimestre. Já a Syngenta teve queda de 10% nas vendas, para US$ 5,2 bilhões, enquanto o Ebitda recuou 2%, para US$ 800 milhões. A companhia atribuiu parte da pressão à concorrência de fabricantes de genéricos e à saída de negócios com margens menores.
Margens
Segundo Fonseca, a recuperação do setor está diretamente relacionada à capacidade financeira dos agricultores, que passaram por um período de margens mais apertadas e reduziram gastos com tecnologias e produtos utilizados no campo.
Para a safra 2026/27, o banco estima que a margem operacional dos produtores de Mato Grosso, considerando apenas os custos de custeio, alcance 38% na soja e 46% no milho. A manutenção desses patamares deve contribuir para a recomposição gradual da capacidade de investimento dos agricultores.
"Quando a gente vê essa perspectiva de melhora, passa muito pela melhora da condição do produtor rural no campo. Essa melhora da margem daqui para frente é o gatilho para a gente ver a melhora no setor todo de insumos", afirmou Fonseca.



