El Niño desafia recuperação do mercado global de cacau
Mercado inicia reconstrução dos estoques, mas possível Super El Niño e dúvidas sobre a safra africana limitam o alívio nas cotações

A recuperação da oferta global de cacau começou a aliviar as preocupações com o abastecimento mundial, mas o mercado voltou a olhar com cautela para a próxima safra. A possibilidade de um episódio forte de El Niño e os primeiros sinais de fragilidade no desenvolvimento das lavouras na África Ocidental reacenderam os temores de uma nova quebra de produção justamente quando o setor iniciava a reconstrução dos estoques após a pior crise de oferta em décadas.
"O mercado internacional de cacau chega à metade de 2026 em um cenário de estabilidade apenas relativa", afirmam os analistas Lucca Bezzon e Leonardo Rossetti, da consultoria StoneX. Segundo eles, "mais do que o patamar dos preços, o que melhor define o momento atual é a convivência entre fundamentos que apontam em direções opostas".
Nas últimas semanas, os contratos futuros voltaram a ganhar força à medida que aumentaram as incertezas sobre o desenvolvimento da safra 2026/27 na África Ocidental, região responsável por cerca de 60% a 70% da produção mundial de cacau.
Segundo análise da Barchart, as chuvas recentes inundaram estradas, dificultaram o acesso de produtores às fazendas e aos portos e elevaram o risco de doenças capazes de comprometer o desenvolvimento dos frutos e reduzir a produtividade dos cacaueiros. Ao mesmo tempo, levantamentos iniciais da próxima safra na Costa do Marfim apontam uma formação de frutos abaixo da média, um dos primeiros indicativos de que a produção principal, com uma colheita que começa oficialmente em setembro, pode enfrentar dificuldades.
El Niño
O mercado também acompanha atentamente a evolução do fenômeno El Niño. De acordo com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), existe 67% de probabilidade de ocorrência de um "Super El Niño" neste ano, um dos eventos mais intensos da série histórica. Em geral, esse fenômeno provoca temperaturas mais elevadas e redução das chuvas em partes da África Ocidental, diminuindo a umidade do solo e aumentando o estresse hídrico das plantas justamente em uma fase importante do desenvolvimento das lavouras.
Embora ainda seja cedo para estimar impactos concretos sobre a produção, o mercado passou a precificar esse risco. "O principal eixo de incerteza para esse período segue sendo o clima. A probabilidade elevada de consolidação de um episódio de El Niño de forte intensidade no fim do ano mantém um prêmio de risco embutido nos preços", afirmam Bezzon e Rossetti.
Segundo eles, o comportamento das lavouras entre julho e setembro será determinante para a formação da safra principal na Costa do Marfim e em Gana. "O cenário-base não deve assumir uma quebra semelhante à de 2023/24, mas tampouco permite descartar perdas parciais de produtividade caso o clima se deteriore no quarto trimestre".
Oferta
Após três safras consecutivas de déficits globais, a produção voltou a crescer e passou novamente a superar o consumo.
Entre 2021/22 e 2023/24, o mercado acumulou sucessivos déficits, chegando a um saldo negativo próximo de 500 mil toneladas na safra 2023/24, segundo dados da ICCO (International Cocoa Organization) compilados pela StoneX. O desequilíbrio levou as cotações internacionais aos maiores níveis da história recente e pressionou toda a cadeia global do chocolate.
A partir da safra 2024/25, porém, o cenário começou a mudar. Em revisão divulgada em 29 de maio, a ICCO estimou um superávit global de 48 mil toneladas. A produção mundial foi revisada para 4,723 milhões de toneladas, enquanto a moagem ficou em 4,628 milhões de toneladas, indicando o início de uma recuperação da oferta.
As projeções da StoneX apontam para uma continuidade desse movimento. A consultoria estima um superávit próximo de 250 mil toneladas para a safra 2025/26 e outro de aproximadamente 150 mil toneladas em 2026/27. Embora menores do que as previsões divulgadas no início do ano, revisadas justamente em razão dos riscos climáticos associados ao El Niño, os números representam uma mudança importante em relação ao quadro de escassez vivido até recentemente.
Segundo os analistas, a safra 2025/26 tem surpreendido positivamente os principais produtores do Oeste Africano, especialmente após a revisão das entregas de amêndoas na Costa do Marfim.
Reconstrução dos estoques
A melhora da produção, entretanto, não significa que o mercado tenha voltado a uma situação de conforto. Embora o balanço global tenha retornado ao terreno positivo, a reconstrução dos estoques ainda ocorre de forma gradual. "A reconstrução dos estoques segue incompleta, e esse ponto impede que o mercado trate a melhora recente da oferta como uma normalização plena do balanço", destacam os analistas da StoneX.
Enquanto a oferta melhora gradualmente, o consumo mundial ainda dá sinais mistos. Dados das principais associações da indústria mostram retração da moagem em importantes mercados consumidores.
No primeiro trimestre de 2026, a moagem somada de Europa, América do Norte, Brasil, Ásia e Costa do Marfim alcançou aproximadamente 876 mil toneladas, abaixo das 899 mil toneladas registradas no mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da StoneX com dados da European Cocoa Association (ECA), Cocoa Association of Asia (CAA), Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) e Groupement des Exportateurs de Café-Cacao (GEPEX).
Segundo a StoneX, a recuperação tende a ser gradual porque o choque de preços ocorrido entre 2023 e 2025 provocou mudanças estruturais na indústria.
"A alta da manteiga de cacau, que chegou aos seus maiores níveis históricos, estimulou reformulações, redução de gramaturas e uso maior de gorduras alternativas em algumas categorias. Esse tipo de ajuste tende a criar um efeito de persistência, já que as empresas raramente desfazem rapidamente mudanças implementadas em meio a um choque de custo tão intenso", afirmam os analistas. Por isso, mesmo com a queda dos preços da amêndoa, o consumo não deve voltar rapidamente aos padrões anteriores.
O Barchart observa que os estoques certificados da ICE cresceram e atingiram recentemente 3,06 milhões de sacas, o maior nível em quase dois anos. Ainda assim, o mercado continua sensível a qualquer notícia relacionada ao clima na África Ocidental justamente porque esses estoques permanecem inferiores aos níveis considerados confortáveis para absorver eventuais problemas de produção.
Essa combinação ajuda a explicar o comportamento recente das cotações. Embora os contratos futuros tenham recuado significativamente em relação aos picos históricos registrados entre 2024 e 2025, continuam negociados em uma faixa considerada elevada em termos históricos, oscilando entre US$ 3.500 e US$ 5.500 por tonelada. Agora, o mercado aguarda, além das questões climáticas, a divulgação dos dados de moagem do segundo trimestre, prevista para 16 de julho.
"O primeiro sinal será a confirmação das condições agronômicas no Oeste Africano antes da abertura da safra principal. O segundo será a leitura dos dados de moagem, que deve indicar se a demanda industrial encontrou um piso mais consistente", segundo Bezzon e Rossetti.



