Gabriella Weiss
Blog
Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem especialização pela Université de Paris.

Em meio à restrição global de fertilizantes, China prioriza mercado interno

Parte dos compradores esperava que o país asiático ampliasse a oferta internacional de fertilizantes, mas a expectativa não se concretizou, contribuindo para um cenário mais restrito

Compartilhar matéria

A China já vinha dando sinais de que poderia apertar o cerco nas exportações de fertilizantes para priorizar o abastecimento interno. Agora, novos movimentos indicam que essa tendência pode estar se consolidando.

Em meados de março, surgiram relatos de que Pequim teria suspendido as exportações de misturas de fertilizantes à base de nitrogênio e potássio, além de algumas variedades de fosfato. As informações foram divulgadas por agências internacionais, com base em fontes do mercado, mas ainda não houve confirmação oficial por parte do governo chinês.

O tema ganha peso extra no Brasil. Em 2025, a China ultrapassou a Rússia e assumiu a posição de principal fornecedora de fertilizantes para o país — um movimento puxado, sobretudo, pela oferta de produtos menos concentrados, que ganharam espaço na última safra agrícola brasileira.

Hoje, cerca de 24% de todo o fertilizante importado pelo Brasil vem do mercado chinês. Nesse contexto, qualquer mudança na política de exportação do país asiático passa a ter impacto direto sobre custos, planejamento e oferta no agronegócio brasileiro.

Desde o segundo semestre de 2025, o país asiático tem sinalizado que pode suspender até agosto de 2026 suas exportações de fosfatados para conter preços locais. Hoje, 28% dos fosfatados importados pelo Brasil v m da China. Entre os produtos que podem ser afetados estão o superfosfato simples (SSP), o superfosfato triplo (TSP) e os fertilizantes NP (nitrogênio e fósforo).

Analistas apontam que uma possível restrição pode ser muito prejudicial, além de uma pressão adicional aos preços.

O Brasil teria que buscar outras fontes de fosfatados tradicionais para compensar a ausência chinesa, como Rússia e Marrocos. E aí, potencialmente, com um preço muito mais elevado. Se não há a disponibilidade de fosfato da China, então a tendência é de firmeza dos preços.

Geopolítica de fertilizantes

O mercado de fertilizantes fosfatados já enfrentava restrições globais de oferta antes de recentes sinalizações da China e da intensificação de conflitos no Oriente Médio. 

Desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, os preços do enxofre, insumo utilizado na produção de fertilizantes fosfatados, registraram forte alta e atingiram níveis históricos. Embora tenham recuado posteriormente, não retornaram aos patamares anteriores. 

A Rússia, que tinha participação relevante como exportadora, passou a importar o produto após impactos em suas refinarias durante o conflito, o que reduziu a capacidade de refino de petróleo e, consequentemente, a produção de enxofre. O conflito na região do Mar Negro continua a influenciar o mercado, ainda que parte desses efeitos já esteja incorporada aos preços atuais dos fertilizantes, segundo analistas.

Esse movimento contribuiu para a diminuição da oferta global. Parte dos compradores esperava que o país asiático ampliasse a oferta internacional, mas a expectativa não se concretizou, contribuindo para um cenário mais restrito.

Nos últimos dois anos, o custo do enxofre subiu de cerca de US$ 100 por tonelada para aproximadamente US$ 500 no início de 2026. Após ataques dos Estados Unidos ao Irã, o valor chegou a US$ 700 por tonelada. 

De acordo com Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic Fertilizantes, são necessários cerca de 400 quilos de enxofre para produzir uma tonelada de fertilizante fosfatado. Diante desse cenário de custos, a empresa suspendeu temporariamente as operações de uma de suas unidades produtivas, aguardando condições de viabilidade econômica. Segundo o executivo, a normalização do mercado tende a se tornar mais distante com a intensificação dos conflitos.

A volatilidade também se estende a outros segmentos do setor de fertilizantes. Como os fertilizantes nitrogenados dependem de derivados de petróleo e gás natural, a elevação desses insumos tem impacto direto nos preços. 

No caso do potássio, a região de Israel responde por cerca de 5% da produção global. Embora os embarques não tenham sido diretamente afetados, houve aumento nos custos de frete, impulsionado pela alta do petróleo, além de elevação nos custos de seguro em rotas próximas a áreas de conflito.

A China também tem papel relevante no mercado de potássio e, em novembro, fechou um contrato de fornecimento do insumo com uma empresa russa para 2026. O país antecipou-se ao período tradicional de negociações, entre maio e junho, o que acendeu um alerta no mercado. 

O Oriente Médio, importante fornecedor de ureia utilizada na produção de fertilizantes nitrogenados, também permanece no radar do mercado. A região concentra mais de 40% das exportações globais do produto, e o estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte, é considerado estratégico e sensível a instabilidades, tendo sido fechado em função da escalada recente de tensões.