Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem especialização pela Université de Paris.

Europa tenta manter indústria competitiva diante da disputa com EUA e China

Energia, fertilizantes e descarbonização entram no centro da estratégia europeia para reduzir dependência externa

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AMSTERDAM, HOLANDA - A União Europeia está reposicionando sua política industrial para enfrentar um cenário de competição mais intensa com Estados Unidos e China. A avaliação foi apresentada pelo primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten, e pelo comissário europeu para Clima, Emissões Líquidas Zero e Crescimento Limpo, Wopke Hoekstra, durante a inauguração da maior planta industrial de captura e armazenamento de carbono da Europa, em Sluiskil, na Holanda.

Os dois defenderam que a descarbonização deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a fazer parte da estratégia de competitividade e segurança econômica do bloco.

Jetten afirmou que a indústria europeia enfrenta três pressões simultâneas: a concorrência da China, as políticas comerciais dos Estados Unidos e os altos custos da energia.

Segundo ele, a resposta europeia passa por investir em inovação e acelerar a transição energética sem abrir mão da capacidade industrial.

"O potencial para a indústria europeia é enorme. Obviamente, somos desafiados pelos americanos, pelos chineses e pelos altos preços da energia", disse.

Para o primeiro-ministro holandês, a resposta não está em escolher entre crescimento econômico e redução de emissões. A estratégia, segundo ele, é fazer os dois movimentos simultaneamente.

Ele citou investimentos em hidrogênio verde, na integração da infraestrutura energética entre Holanda, Alemanha e Bélgica e na criação de corredores para transportar eletricidade e combustíveis de baixo carbono entre os principais polos industriais do continente.

O desafio, porém, é fazer essa transição sem perder capacidade produtiva para concorrentes de fora do bloco. "Precisamos criar uma economia baseada em regras aqui na Europa que seja capaz de ser lucrativa", afirmou.

Clima, competitividade e independência

Hoekstra colocou a dependência energética no centro desse problema. Segundo ele, a Europa importa mais de 80% do gás e mais de 95% do petróleo que consome.

Para o comissário, essa exposição tem impacto direto sobre a competitividade europeia. Ele afirmou que as mudanças no mercado de energia fizeram o bloco pagar "meio bilhão [de euros] a mais para obter nenhuma energia adicional em comparação com o ano passado".

Na avaliação do comissário, a Europa também precisa aumentar os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, especialmente para áreas que serão determinantes para a economia do futuro. "Temos também um problema de competitividade, mas também de independência. A Europa, infelizmente, está ficando para trás", afirmou.

Segundo Hoekstra, a combinação de concorrência externa, transformação do cenário global e investimentos insuficientes em inovação exige uma mudança na estratégia econômica europeia.

Hoekstra afirmou que o problema de dependência não se restringe à energia. A mesma questão, segundo ele, aparece na cadeia de fertilizantes.

O comissário afirmou que a dependência externa também existe nesse mercado e defendeu uma produção mais europeia. "Precisamos de fertilizantes mais baratos, mais limpos e mais europeus", afirmou.

Jetten relacionou essa preocupação às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, que afetaram cadeias globais de energia e matérias-primas. Segundo ele, os conflitos mostraram a necessidade de construir cadeias de suprimento entre países parceiros, reduzindo a dependência de fornecedores considerados geopoliticamente sensíveis.

"Precisamos investir na produção sustentável de fertilizantes sem depender de regimes de que não gostamos", afirmou o primeiro-ministro.

Para ele, essa mudança tem uma dimensão que vai além da economia. "Isso é importante não apenas para nossa economia, mas também para a autonomia estratégica que precisamos construir com nossos parceiros", acrescentou.

Mercosul aparece como parceiro estratégico

Nesse cenário, o Brasil aparece como parceiro estratégico. O primeiro-ministro disse que a Europa e países da América Latina podem formar um polo de produção de fertilizantes e alimentos mais resiliente, e incluiu o acordo Mercosul-União Europeia como parte dessa estratégia de diversificação de parceiros.

O primeiro-ministro afirmou que tanto a Europa quanto a América Latina enfrentam a concorrência da China e mudanças nas regras comerciais dos Estados Unidos.

"Nosso continente e o continente latino-americano têm enfrentado uma concorrência desleal da China e regulamentações comerciais imprevisíveis dos Estados Unidos”, disse. E, assim, o acordo Mercosul-União Europeia é, em sua opinião, "extremamente importante para construir uma nova parceria entre a União Europeia e os países latino-americanos".

Na avaliação do primeiro-ministro, "Brasil e União Europeia juntos podem ser uma potência na produção de alimentos, não apenas para nossas populações, mas também para exportar para o resto do mundo."

A referência ao Mercosul aparece, portanto, como um instrumento para ampliar relações comerciais e fortalecer cadeias estratégicas com parceiros considerados confiáveis, dentro da estratégia mais ampla de autonomia econômica defendida pelos líderes europeus.

*A jornalista viajou a convite da Yara

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