Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem mestrado pela Université de Paris.

Ureia avança ao maior nível desde 2022, mas demanda brasileira perde força

Brasil ainda está confortável em relação à alta da ureia, que ultrapassou os US$ 700, mas o cenário pode mudar caso as cotações continuem subindo à medida que se aproximam as compras para a safra de verão

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Os preços da ureia acumularam uma alta de aproximadamente 55% a 60% em pouco mais de um mês no mercado internacional, refletindo os impactos das tensões no Oriente Médio sobre a oferta global do fertilizante. A tonelada, que era negociada a cerca de US$ 475 no início do conflito envolvendo o Irã, passou a oscilar entre US$ 730 e US$ 760 CFR Brasil, atingindo o maior patamar desde 2022.

A escalada foi rápida: nos primeiros dias após o início do conflito, os preços subiram para cerca de US$ 500 por tonelada e seguiram avançando ao longo das semanas seguintes, acompanhando o aumento das incertezas sobre o fornecimento na principal região exportadora do produto.

O Oriente Médio concentra cerca de 35% do comércio marítimo global de ureia, com exportações anuais próximas de 20 milhões de toneladas. No caso brasileiro, Irã e Omã tiveram participação relevante nas importações em 2025, somando 1,5 milhão de toneladas, o equivalente a 18,4% do total adquirido pelo país, que foi de 8,2 milhões de toneladas.

Apesar da escalada recente dos preços, a demanda no Brasil permanece limitada. “Compradores brasileiros estão resistentes em aceitar os níveis mais altos, considerando que o pico da demanda - ligada às aplicações nas lavouras de milho inverno - encerrou entre meados/fim de fevereiro”, explicou Gisele Augusto, responsável pela precificação de fertilizantes na Argus.

De acordo com a analista, o mercado apresenta baixa liquidez, já que os preços mais elevados não estimulam novas negociações. Além disso, a relação de troca segue desfavorável ao produtor, uma vez que as cotações das commodities agrícolas não acompanham a alta dos fertilizantes.

Ainda assim, a tendência internacional mantém viés de alta. Os preços nas principais regiões produtoras continuam subindo, o que sustenta os níveis praticados no Brasil, mesmo com algum desconto em relação às origens. 

O impacto tem sido limitado no Brasil, uma vez que já saímos da temporada de compras do nitrogenado, e apenas demandas pontuais para atender safras de inverno, como trigo e arroz, são registradas. A demanda destas safras é pequena na comparação com o montante destinado ao plantio de milho, o que faz com que, usualmente, não representem um fator de suporte de preços”, pontuou Gisele. 

Analistas destacam diferenças entre o momento atual e o observado em 2022. Naquele período, o avanço das cotações esteve associado a temores de desabastecimento global, o que estimulou movimentos especulativos. 

No contexto atual, agentes de mercado adotam postura mais cautelosa, aguardando maior clareza sobre a duração e os desdobramentos do conflito no Oriente Médio antes de realizar novas negociações.

Assim, o Brasil ainda está confortável em relação à alta da ureia, mas o cenário pode mudar caso as cotações continuem subindo à medida que se aproximam as compras para a safra de verão.

O Irã figura entre os principais produtores mundiais de ureia, com produção estimada em cerca de 9 milhões de toneladas em 2024, sendo aproximadamente metade destinada à exportação. Entre os principais destinos estão Turquia, Brasil e África do Sul. No entanto, desde meados de dezembro, a produção iraniana opera de forma parcial devido a restrições no fornecimento de gás natural, insumo essencial para a fabricação de amônia, base da ureia. Segundo a Argus, cerca de 450 mil toneladas deixaram de ser produzidas nesse período.

A dependência do gás natural torna o custo da ureia sensível às oscilações nos mercados de energia, especialmente petróleo e gás. Esse fator, combinado com incertezas geopolíticas e limitações produtivas, contribui para a volatilidade observada nos preços internacionais do fertilizante.