Ureia avança ao maior nível desde 2022, mas demanda brasileira perde força
Brasil ainda está confortável em relação à alta da ureia, que ultrapassou os US$ 700, mas o cenário pode mudar caso as cotações continuem subindo à medida que se aproximam as compras para a safra de verão

Os preços da ureia acumularam uma alta de aproximadamente 55% a 60% em pouco mais de um mês no mercado internacional, refletindo os impactos das tensões no Oriente Médio sobre a oferta global do fertilizante. A tonelada, que era negociada a cerca de US$ 475 no início do conflito envolvendo o Irã, passou a oscilar entre US$ 730 e US$ 760 CFR Brasil, atingindo o maior patamar desde 2022.
A escalada foi rápida: nos primeiros dias após o início do conflito, os preços subiram para cerca de US$ 500 por tonelada e seguiram avançando ao longo das semanas seguintes, acompanhando o aumento das incertezas sobre o fornecimento na principal região exportadora do produto.
O Oriente Médio concentra cerca de 35% do comércio marítimo global de ureia, com exportações anuais próximas de 20 milhões de toneladas. No caso brasileiro, Irã e Omã tiveram participação relevante nas importações em 2025, somando 1,5 milhão de toneladas, o equivalente a 18,4% do total adquirido pelo país, que foi de 8,2 milhões de toneladas.
Apesar da escalada recente dos preços, a demanda no Brasil permanece limitada. “Compradores brasileiros estão resistentes em aceitar os níveis mais altos, considerando que o pico da demanda - ligada às aplicações nas lavouras de milho inverno - encerrou entre meados/fim de fevereiro”, explicou Gisele Augusto, responsável pela precificação de fertilizantes na Argus.
De acordo com a analista, o mercado apresenta baixa liquidez, já que os preços mais elevados não estimulam novas negociações. Além disso, a relação de troca segue desfavorável ao produtor, uma vez que as cotações das commodities agrícolas não acompanham a alta dos fertilizantes.
Ainda assim, a tendência internacional mantém viés de alta. Os preços nas principais regiões produtoras continuam subindo, o que sustenta os níveis praticados no Brasil, mesmo com algum desconto em relação às origens.
“O impacto tem sido limitado no Brasil, uma vez que já saímos da temporada de compras do nitrogenado, e apenas demandas pontuais para atender safras de inverno, como trigo e arroz, são registradas. A demanda destas safras é pequena na comparação com o montante destinado ao plantio de milho, o que faz com que, usualmente, não representem um fator de suporte de preços”, pontuou Gisele.
Analistas destacam diferenças entre o momento atual e o observado em 2022. Naquele período, o avanço das cotações esteve associado a temores de desabastecimento global, o que estimulou movimentos especulativos.
No contexto atual, agentes de mercado adotam postura mais cautelosa, aguardando maior clareza sobre a duração e os desdobramentos do conflito no Oriente Médio antes de realizar novas negociações.
Assim, o Brasil ainda está confortável em relação à alta da ureia, mas o cenário pode mudar caso as cotações continuem subindo à medida que se aproximam as compras para a safra de verão.
O Irã figura entre os principais produtores mundiais de ureia, com produção estimada em cerca de 9 milhões de toneladas em 2024, sendo aproximadamente metade destinada à exportação. Entre os principais destinos estão Turquia, Brasil e África do Sul. No entanto, desde meados de dezembro, a produção iraniana opera de forma parcial devido a restrições no fornecimento de gás natural, insumo essencial para a fabricação de amônia, base da ureia. Segundo a Argus, cerca de 450 mil toneladas deixaram de ser produzidas nesse período.
A dependência do gás natural torna o custo da ureia sensível às oscilações nos mercados de energia, especialmente petróleo e gás. Esse fator, combinado com incertezas geopolíticas e limitações produtivas, contribui para a volatilidade observada nos preços internacionais do fertilizante.



