Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

Análise: Paz não é negócio

Toda guerra tem um campo de batalha. Essa também tem uma planilha

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Quando o barril de petróleo sobe, alguém comemora. Descobrir quem não é difícil, é necessário apenas seguir os números. E os números, neste caso, são reveladores demais para serem ignorados.

 

No mundo dos projetos de energia, existe um conceito-chave chamado breakeven price, leia-se o preço mínimo por barril a partir do qual um projeto se torna economicamente viável. Os dados mais recentes mostram um retrato claro da indústria:

  • Shale oil (petróleo de xisto) nos EUA: entre US$ 50 e US$ 70/barril, com o WTI médio do Permian em torno de US$ 62–64/barril, segundo a Dallas Fed Energy Survey e a EIA (2024)
  • Offshore em águas profundas (deepwater): entre US$ 50 e US$ 80/barril
  • Areias betuminosas (Canadá/Venezuela): acima de US$ 70/barril
  • Exploração convencional (médias da Wood Mackenzie): breakeven médio de exploração em torno de US$ 45/boe, e US$ 65/boe para fusões e aquisições
Fontes: IEA/Rystad Energy (2025), EIA (2024), Dallas Fed Energy Survey, Wood Mackenzie (H1 2025)

Em outras palavras: a viabilidade de boa parte dos novos projetos de petróleo no mundo depende de preços acima de US$ 60–70/barril. Com o Brent oscilando historicamente nessa faixa ou abaixo dela, qualquer evento geopolítico que empurre
o petróleo para US$ 90, US$ 100 ou mais representa, na prática, uma bonança financeira para toda a cadeia produtiva das petroleiras aos países exportadores.

Do lado dos Estados produtores, o raciocínio é ainda mais explícito. O FMI e a Bloomberg Economics estimam que a Arábia Saudita precisa de um breakeven fiscal entre US$ 94 e US$ 111 por barril para equilibrar seu orçamento, considerando levando em conta os gastos do Fundo de Investimento Público (PIF) e os projetos do Vision 2030, o ambicioso plano saudita de modernização econômica que inclui megacidades no deserto, turismo e diversificação para além do petróleo, mas que
paradoxalmente ainda exige petróleo caro para ser financiado.

Essa conta explica muito. Um Oriente Médio em conflito, com o Estreito de Ormuz ameaçado e o fornecimento global pressionado, empurra os preços para o nível que Riad precisa, sem que a Arábia Saudita precise cortar formalmente sua produção dentro da OPEP+. O inimigo iraniano cumpre esse papel por ela.

No mundo corporativo, o efeito é imediato e mensurável. Com o conflito no Irã escalando, as ações da ExxonMobil subiram mais de 60% nos últimos 12 meses, superando em dobro o retorno do S&P 500. A empresa, que tem cerca de 20% de sua
produção de petróleo e gás concentrada no Oriente Médio e quase 60% de seu portfólio de GNL na região, se beneficia diretamente da instabilidade regional.

A Chevron segue o mesmo caminho. Com exposição relevante ao Iraque (região do Curdistão) e um modelo integrado que cobre toda a cadeia, que acontece da extração ao refino, a companhia vê suas margens se expandirem cada vez que uma notícia ruim chega do Golfo Pérsico.

Em março de 2026, a Fortune publicou que ações de produtores e refinadores americanos de petróleo e gás atingiram máximas históricas em meio ao conflito com o Irã, enquanto consumidores e setores de transporte e tecnologia pagavam a conta nas bombas e nos balanços financeiros.

Trump chegou à Casa Branca prometendo baratear a energia para os americanos. Seu slogan "Drill, baby, drill" sugeria uma expansão massiva da produção doméstica que derrubaria os preços. O paradoxo é que os grandes produtores americanos têm todo o interesse no caminho inverso.

Em outras palavras: a indústria privada de energia americana tem mais a ganhar com um Oriente Médio instável do que com a paz. E Trump, cercado de doadores do setor, navega nessa contradição de forma bastante conveniente.

Não estou afirmando que a guerra foi fabricada para beneficiar a Big Oil. Estou afirmando algo mais sutil e talvez mais preocupante: quando os interesses corporativos e geopolíticos se alinham desta forma, a paz se torna economicamente
inconveniente para uma série de atores poderosos.

A Arábia Saudita precisa de petróleo a US$ 94–111 para fechar suas contas. As grandes petroleiras americanas preferem um barril acima de US$ 80 para maximizar retorno aos acionistas sem precisar ampliar a oferta. Os produtores de shale, de US$
62 a US$ 70 para justificar novos poços. E os Estados do Golfo, de um Irã enfraquecido para consolidar sua hegemonia regional.

O problema é que neste negócio, quem paga são os consumidores no posto de gasolina, as famílias com conta de energia em alta e os países emergentes, como o Brasil, que importam inflação embutida no preço do petróleo.

As 5 maiores petroleiras desde o início do conflito

Valorização das ações desde 28 de fevereiro de 2026 (início dos ataques EUA-Israel ao Irã)

Enquanto o S&P 500 recuava no mesmo período pressionado por tarifas e incerteza macro, o setor de energia foi o único da bolsa americana a registrar ganhos expressivos — uma divergência que não é acidente. É lógica de mercado.

A guerra pode ter muitos motivos.

Mas ela também tem um preço. E alguém está ganhando muito com ele.

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