Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

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Não foi um bombardeio no Irã, foi um bombardeio na economia chinesa

Enquanto mundo discute Teerã, conta chega em Pequim; números mostram por quê

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Nas últimas 48 horas, analistas, jornalistas e mercados financeiros se debruçaram sobre a mesma pergunta: o que acontece com o Irã agora? Quais instalações foram destruídas? Quanto tempo levará para o regime reorganizar o Estado?

São perguntas legítimas. Mas o questionamento que levanto é outro: quem perde mais dinheiro com o fechamento do Estreito de Ormuz? A resposta não está em Teerã. Está em Pequim.

"Um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz é uma recessão global garantida."
Bob McNally, ex-assessor de energia da Casa Branca

O Estreito de Ormuz é o corredor energético mais importante do planeta. Por ele passam, todo dia, cerca de 20 milhões de barris de petróleo — o equivalente a 20% de toda a demanda global.

E quem depende mais desse corredor não é a Europa, não são os Estados Unidos. É a China, que recebe por ali aproximadamente metade de todo o petróleo bruto que importa.

Quando os EUA e Israel bombardearam o Irã no último sábado (28), e a Guarda Revolucionária Iraniana declarou o fechamento efetivo do estreito, eles não miraram apenas em instalações militares iranianas. Miraram, com precisão cirúrgica, na jugular energética da segunda maior economia do mundo.

Uma guerra que começou em 2018

Para entender o que aconteceu no último fim de semana, é preciso voltar sete anos no tempo.

Em 2018, o primeiro governo Trump inaugurou a maior disputa comercial entre as duas maiores economias do planeta desde a Segunda Guerra Mundial.

A justificativa era o déficit comercial americano com a China — que naquele ano atingiu US$ 419 bilhões. A ferramenta: tarifas. Em 2018, a tarifa média americana sobre produtos chineses era de cerca de 3%. Em 2025, chegou a 145%.

Os resultados foram parciais. O déficit bilateral caiu para US$ 308 bilhões em 2025, o menor nível desde 2009. Mas a China simplesmente redirecionou suas exportações para outros mercados — Europa, ASEAN, América Latina — e alcançou um superávit comercial global recorde de US$ 1,19 trilhão em 2025.

As tarifas machucaram. Mas não foram suficientes.

Ao mesmo tempo, outros indicadores revelaram o custo dessa guerra para a China: o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) desacelerou de 6,6% em 2018 para uma projeção de 4,2% em 2026. O desemprego entre jovens de 16 a 24 anos chegou a 21,3% em 2023. E as exportações chinesas aos EUA caíram 28% em 2025, em relação ao ano anterior.

Diante da resiliência chinesa, a estratégia americana precisava evoluir. De tarifas para algo mais estrutural. Mais permanente. Mais doloroso.

O que as tarifas não conseguiram, o petróleo pode conseguir

Há um número que resume a vulnerabilidade estratégica da China de forma mais eloquente do que qualquer tabela de tarifas: a China importa cerca de 10,27 milhões de barris de petróleo por dia.

Desse total, entre 40% e 50% vêm dos países do Golfo Pérsico — Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos — e praticamente todo esse volume transita por Ormuz.

Ou seja: fechar Ormuz é cortar o combustível que alimenta as fábricas chinesas.

E a China é uma economia de fábricas. O setor industrial representa quase 37% do PIB chinês, mais que o dobro da proporção americana (17%). Para comparar: nos EUA, cerca de 80% do PIB vem de serviços.

Nos EUA, o petróleo caro é ruim. Na China, o petróleo caro pode ser devastador.

Mas a dependência vai além dos números do Golfo. A China é também o maior comprador de petróleo iraniano, absorvendo mais de 80% de tudo que o Irã exporta.

Em 2025, foram em média 1,38 milhão de barris por dia chegando às refinadoras independentes chinesas da província de Shandong — as chamadas 'teapots' — com descontos de US$ 10 a US$ 11 por barril. Com o Irã sob ataque e Ormuz fechado, esse fluxo simplesmente some. E não existe substituto imediato.

 

O custo de cada barril mais caro

Quando o petróleo sobe, a China não paga apenas mais pela gasolina. Ela paga mais por tudo.

O petróleo está no começo da cadeia de produção de plásticos, fertilizantes, tecidos sintéticos, embalagens, pneus, tintas e solventes — praticamente tudo que sai das fábricas chinesas com destino ao mundo. Um choque de petróleo é, portanto, simultaneamente um choque de custo de produção.

A matemática é brutal: estudos do FMI (Fundo Monetário Internacional) e de economistas especializados estimam que cada aumento de 10% no preço do petróleo reduz o crescimento do PIB chinês em aproximadamente 0,15 a 0,2 ponto percentual.

Se o petróleo saltar de US$ 73 — valor pré-ataque — para US$ 130, um salto de cerca de 78% dentro do range histórico de conflitos envolvendo o Irã, o impacto potencial no PIB seria de 1,2 a 1,5 ponto percentual. Isso em uma economia que já projetava crescer apenas 4,2% em 2026.

Em outras palavras: o conflito pode cortar pela metade o crescimento econômico da China neste ano.

A ironia cruel: o Irã atinge seu principal aliado

Há uma ironia dolorosa nessa história. O Irã, ao fechar Ormuz em resposta aos ataques americanos e israelenses, prejudicou mais seu principal parceiro comercial do que os próprios agressores.

Os Estados Unidos são hoje o maior produtor de petróleo do mundo — cerca de 13 milhões de barris por dia. São exportadores líquidos de energia. Um petróleo mais caro, no curto prazo, até beneficia as empresas americanas do setor.

A China, ao contrário, não tem esse amortecedor. Sua reserva estratégica de petróleo — estimada entre 800 milhões e 1 bilhão de barris, mantida em sigilo pelo governo — é o único colchão disponível.

E mesmo esse estoque seria suficiente para apenas algumas semanas de disrupção antes que a escassez se transformasse em crise real de abastecimento industrial.

Não por acaso, a China é o país que mais rapidamente pediu cessar-fogo e diálogo nos últimos dias. Não é idealismo. É autopreservação econômica.

Uma guerra em múltiplas frentes

O ataque ao Irã não aconteceu no vácuo. É o mais recente capítulo de uma estratégia americana de contenção da China que vem se desenhando há anos e ganhou enorme velocidade desde 2018: primeiro as tarifas comerciais, depois as restrições a semicondutores e à Huawei, depois as tarifas ainda maiores do segundo mandato Trump, depois a captura de Nicolás Maduro e a interrupção do fluxo de petróleo venezuelano para a China, e agora os ataques ao Irã.

Cada passo dessa sequência atinge, direta ou indiretamente, a cadeia produtiva, o crescimento e a segurança energética chinesa. O Irã foi o alvo desta semana. Mas a China é o contexto de fundo de cada decisão.

Essa leitura não é conspiracionista. É geopolítica aplicada. Os EUA sabem que o maior ponto de vulnerabilidade da China não está em Taiwan, não está nos chips, não está nos dólares da reserva internacional. Está no petróleo que alimenta suas fábricas todos os dias.

O que vem a seguir

No curto prazo, os mercados vão refletir o choque. O petróleo já saltou e pode alcançar entre US$ 90 e US$ 130 por barril dependendo da duração do conflito.

Ações de refinadoras e petroquímicas chinesas devem sofrer. Empresas de energia renovável e de carvão doméstico podem se valorizar como alternativas de emergência.

No médio prazo, a China vai acelerar o que já vinha fazendo: diversificar suas fontes de energia, apressar a eletrificação do transporte — os veículos elétricos já representam quase metade das vendas de carros novos no país — e buscar rotas alternativas de abastecimento via Rússia e Cazaquistão por dutos terrestres que não dependem de nenhum estreito marítimo.

Mas no curto prazo, a dor é real. E quem não a vê é porque está olhando para Teerã, quando deveria estar olhando para Pequim.

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