Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

RJ investiu R$ 100 milhões e colheu R$ 5,9 bi, pense se fizesse isso sempre

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O estado do Rio de Janeiro possui um PIB de R$ 1,3 trilhão, consolidando-se como a segunda maior economia do Brasil. A capital fluminense, com seus 6,7 milhões de habitantes, é o coração pulsante dessa engrenagem. Mas existe um momento do ano em que a cidade praticamente dobra de tamanho - e os números que isso gera merecem uma análise séria de quem olha para economia com lente de investidor.

Pense na dimensão do que acontece no Carnaval carioca: uma cidade com 6,7 milhões de moradores recebe um público estimado de aproximadamente 8 milhões de pessoas ao longo do período de folia. Isso significa que, durante o Carnaval, o Rio de Janeiro opera com uma população flutuante que supera seu próprio contingente residente. São 2 milhões de turistas - um crescimento de 8,2% em relação ao ano passado -somados aos milhões de moradores que tomam as ruas entre blocos, desfiles no Sambódromo e eventos por toda a cidade. A taxa de ocupação hoteleira bate 98%.

Não estamos falando de uma festa. Estamos falando de um dos maiores eventos econômicos do Brasil.

A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE), da Casa Civil e da Riotur, publica anualmente o estudo “Carnaval de Dados” - já em sua quinta edição. Este relatório é uma peça fundamental de inteligência econômica municipal. Ele consolida dados de gastos com hospedagem, transporte, alimentação, eventos e serviços ligados direta ou indiretamente à festa.

Para quem acompanha economia de verdade, esse tipo de publicação é ouro. O Carnaval de Dados transforma uma manifestação cultural em números verificáveis, permitindo análises de retorno sobre investimento público, multiplicadores econômicos e projeções fiscais. É o tipo de estudo que deveria existir para todos os grandes eventos do calendário carioca - e que mostra a maturidade crescente na gestão de dados do município.

Aqui está o dado que todo gestor público e todo investidor deveria memorizar: a Prefeitura investe cerca de R$ 100 milhões por ano no Carnaval — incluindo incentivos culturais às escolas de samba, operação do evento e manutenção do Sambódromo. Em contrapartida, a arrecadação municipal de ISS proveniente de serviços ligados ao Carnaval gira em torno de R$ 240 milhões.

Faça a conta: isso é um retorno de 140% apenas na arrecadação tributária direta. É um retorno sobre o investimento que qualquer CFO gostaria de apresentar numa reunião de conselho. E estamos falando apenas do ISS. Somente os setores de turismo e eventos já respondem por mais de R$ 47 milhões dessa arrecadação no mês da festa.

Enquanto a receita tributária é o retorno direto para o cofre público, o impacto econômico total do Carnaval 2026 é estimado em R$ 5,9 bilhões na economia carioca - R$ 200 milhões acima da estimativa inicial anunciada em janeiro. Em 2025, esse número foi de R$ 5,7 bilhões.

Para o estado como um todo, a estimativa chega a R$ 10 bilhões, com geração de até 70 mil empregos temporários. A operação envolve 23 órgãos municipais, 32 mil servidores públicos, 13,1 mil profissionais da Comlurb e 12,5 mil agentes da Guarda Municipal. Foram licenciados 15 mil ambulantes. São 458 blocos autorizados, com quase 7 milhões de foliões apenas no Carnaval de rua.

Os números são impressionantes. Mas é preciso contextualizá-los.

O PIB do estado do Rio de Janeiro é de R$ 1,3 trilhão. O de São Paulo é de R$ 3,4 trilhões - quase três vezes maior. O Carnaval é extraordinário, e os dados provam que o investimento público na festa tem retorno excepcional. Mas o turismo, por mais potente que seja, representa apenas uma fatia do potencial econômico carioca.

O que realmente pode transformar a trajetória do Rio é uma atuação coordenada em três frentes estratégicas que vão muito além da Sapucaí:

Segurança pública como ativo econômico. A percepção de segurança é um dos maiores fatores de atração - ou repulsão - de investimentos. Uma cidade que melhora consistentemente seus indicadores de segurança atrai mais turistas, mais eventos internacionais, mais sedes corporativas e mais capital de longo prazo. O Carnaval já mobiliza 12,5 mil guardas municipais. Imagine esse nível de comprometimento o ano todo.

Infraestrutura e setor energético

O Rio de Janeiro é a capital do petróleo e gás no Brasil. A cadeia de óleo e gás foi o principal motor do crescimento de 3,9% do PIB estadual em 2024 -  acima dos 3,4% nacionais. O Novo PAC prevê R$ 342,6 bilhões em investimentos destinados ao estado. A Firjan projeta crescimento de 2,6% para 2025, sustentado pela construção civil e pela cadeia do petróleo. Esse é o tipo de investimento que gera receita recorrente, ao contrário da sazonalidade do turismo.

Tecnologia e economia do conhecimento

O Rio tem universidades de ponta, centros de pesquisa e um ecossistema de startups em crescimento. A indústria criativa brasileira movimenta cerca de R$ 393 bilhões por ano, equivalente a 3,59% do PIB nacional. O Carnaval é uma vitrine dessa indústria criativa - mas a cidade precisa transformar essa vitrine em plataforma permanente de inovação e negócios.

O Carnaval de 2026 é a prova de que o Rio de Janeiro sabe gerar valor. Um investimento de R$ 100 milhões que retorna R$ 240 milhões em ISS e movimenta quase R$ 6 bilhões na economia é uma máquina de eficiência rara no setor público brasileiro.

Mas para um estado com PIB de R$ 1,3 trilhão que olha para São Paulo e seus R$ 3,4 trilhões, o caminho não é apenas sambar mais - é orquestrar melhor. Segurança, infraestrutura, energia e tecnologia são os instrumentos que faltam para transformar o Rio de Janeiro de segunda maior economia em uma potência econômica mais competitiva e diversificada.

O turismo é bom. Os dados provam isso. Mas o Rio pode - e deve - ir muito mais longe numa atuação coordenada que faça do Carnaval não apenas o maior espetáculo da Terra, mas o ponto de partida de uma estratégia econômica de longo prazo.

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