Isabel Mega
Blog
Isabel Mega

Mineira, gosta de uma boa prosa. Filha do rádio, ouve, observa e explica as complexidades da política direto de Brasília

Aliados negam acordo de Hugo com a oposição para pautar anistia

Sem negociação, sessão da Câmara foi realizada sob ameaça de punição diante de ocupação bolsonarista

Compartilhar matéria

Aliados do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), negam que ele tenha feito acordo com a oposição bolsonarista para pautar o projeto de lei da anistia e a PEC (proposta de emenda à Constituição) de fim do foro privilegiado.

A versão de que se teria avançado para um acordo foi propagada por lideranças bolsonaristas, após Hugo ter conseguido entrar no plenário e abrir a sessão na noite de quarta-feira (6), escoltado pela tropa de choque de líderes e outros parlamentares do Centrão.

Deputados que ficaram ao lado de Hugo ao longo de todo o dia relataram à CNN que não houve nenhuma negociação com o presidente da Casa. O único ponto que teria avançado foi o compromisso estabelecido pelo União Brasil e pelo PP de manterem uma obstrução regimental até discutir as duas pautas.

“Hugo não aceitou discutir nada enquanto não assumisse a Presidência”, disse à CNN um parlamentar da Mesa.

Interlocutores de Hugo, no entanto, foram claros nos recados à oposição de que não iriam bancar desrespeito à presidência da Casa.

Na obstrução regimental, podem ser apresentados requerimentos com o intuito de protelar as atividades em plenário. A estratégia é frequentemente utilizada pela oposição, independente do campo ideológico, mas não inclui a obstrução física do espaço.

Durante a quarta-feira, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) também ajudou a socorrer Hugo na prova de fogo com a oposição e chegou a receber parlamentares do PL.

No dia anterior, quando a ocupação bolsonarista começou, Hugo chegou a convocar uma reunião com todos os líderes da casa. O PL avisou que não iria, mas lideranças do partido se encontraram antes com Hugo Motta, em uma reunião que não produziu acordo.

No entorno de Hugo, a visão é de que o presidente só conseguiu finalmente sentar na cadeira e abrir a sessão após a ameaça de punição aos parlamentares. Cerca de meia hora antes do horário marcado para a abertura dos trabalhos, a Mesa Diretora baixou um ato com previsão de suspensão dos mandatos por até seis meses para os deputados que tentassem "impedir ou obstaculizar as atividades legislativas".

Durante o dia, também se discutiu na Mesa que, se houver algum tipo de conflito físico com a Polícia Legislativa da Casa, a previsão é de que o deputado possa ser cassado.

Os bolsonaristas usaram a ocupação para fazer lives e publicações nas redes sociais. A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) chegou a levar a filha, de apenas 4 meses, para o local e amamentou a criança na cadeira da presidência.

A entrada dos jornalistas ao plenário só foi liberada nas galerias e somente no momento em que Hugo estava prestes a retomar o controle do plenário.

Ironicamente, o último a sentar na cadeira e que precisou liberar espaço para Hugo foi Marcel Van Hattem (Novo-RS), que foi candidato à presidência da casa na última eleição, mas que acabou derrotado.