Isadora Camargo
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Isadora Camargo

É âncora do CNN Agro News. Jornalista há 15 anos em economia e negócios, é doutora pela USP e pela Universidade de Navarra; passou por Valor Econômico e Agência EFE.

Agro articula retórica para reverter tarifaço nos EUA

Setores produtivos têm até 1º de julho para enviar ao Escritório de Comércio dos EUA argumentação escrita em defesa do comércio bilateral isento ou com taxas reduzidas

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Até o próximo 1° de julho, os setores impactados pela nova tarifa anunciada por Donald Trump têm de entregar uma argumentação por escrito ao USTR - Escritório de Comércio dos Estados Unidos - com os principais motivos para tentar reverter o tarifaço, que, se aprovado, pode chegar a 37,5% sobre alguns produtos.

Esta é a etapa principal que antecede a audiência sobre a ação proposta na investigação da Seção 301, marcada para 6 de julho. O encontro também tratará das práticas, políticas e medidas do Brasil relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos; tarifas injustas e preferenciais; aplicação de medidas anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

De acordo com especialistas e representantes dos setores afetados, a taxação inviabilizaria a expansão de comércio bilateral de diversos segmentos, dentre eles o café solúvel, as carnes e o etanol.

A principal retórica do agro brasileiro é o aumento de inflação para a população americana, ponto sensível para a popularidade do presidente Trump neste mandato.

A estratégia dos setores produtivos do Brasil é sensibilizar as partes americanas por meio da matemática e da equação “oferta e demanda”.

A reportagem apurou que reuniões paralelas entre partes americanas e brasileiras estão acontecendo para “afinar” as narrativas e os argumentos para um acordo de ganha-ganha entre Brasil e EUA no tarifaço.

O Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) já protocolou sua defesa junto ao USTR. Em primeira mão, a entidade divulgou ao CNN Agro o discurso que apresentará às autoridades americanas.

Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, é quem representará a entidade presencialmente e fará o discurso. A diplomacia será a “liga” do argumento, começando com dados econômicos da cafeicultura do Brasil, seguidos por números do impacto no mercado americano.

O foco da argumentação está no mercado americano e não nos cafeicultores brasileiros.

Entre os números que serão destacados pelo Cecafé estão: o consumo doméstico de café nos EUA, projetado em 26,5 milhões de sacas de 60 quilos, com fornecimento de 30% do Brasil, principal fornecedor.

“Os cafés brasileiros não podem ser substituídos de maneira viável”, defenderá Matos.

Outro dado a ser frisado é o consumo de café por parte dos americanos. De acordo com a NCA (Associação Nacional do Café dos EUA), mais de 70% da população norte-americana consome café; os gastos anuais com café e produtos relacionados alcançam US$ 301 milhões por dia; e o café representa mais de 8% do valor total do setor de alimentação fora do lar nos Estados Unidos.

A indústria cafeeira norte-americana também sustenta mais de 2,2 milhões de empregos e gera mais de US$ 101 bilhões em salários, beneficiando todos os estados e comunidades locais. No total, o setor movimenta US$ 343 bilhões por ano, equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto do país.

Apesar de o café verde exportado não estar tarifado ainda, a representação do Cecafé é uma precaução à taxa de 12,5% referente a suposta falha do Brasil em proibir e fiscalizar a entrada de mercadorias feitas com trabalho forçado, que inclui outros 59 países.

Também é uma forma de dar peso ao setor do café como um todo, em especial ao café solúvel brasileiro, que enfrenta taxações.

De acordo com Aguinaldo Lima, presidente da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel), o foco é evidenciar a capacidade de oferta e de qualidade do produto brasileiro em detrimento da necessidade de consumo dos americanos.

O café solúvel segue taxado desde 2025 e já confirmou presença na audiência de 6 de julho, na capital federal Washington, para que os representantes dos setores apresentem os argumentos aos pares americanos.

A data é crucial, pois irá definir o debate antes da decisão final do governo Trump de colocar em vigor as tarifas, agenda marcada para 15 de julho.

Entretanto, na audiência de 6 de julho, os setores terão apenas três minutos de apresentação, o que Lima considera “tempo curtíssimo”. Para ele, o documento escrito é o mais importante da negociação e, por isso, é onde os segmentos do agro estão debruçados nos próximos dias.

“Os depoimentos serão da parte brasileira e da parte americana. Cada depoente tem 3 minutos no máximo para estar ali, se declarando e à disposição de perguntas. Então, da parte americana, vai ter os prós e os contras para diversos setores, com questionamentos, como no caso do etanol e carnes. Nisso, esses setores ganham mais tempo de debate na audiência. Não deve ser o caso do café”, explicou.

Lima espera que não haja contrapartida dos americanos para o grão brasileiro, em especial para o solúvel que já está taxado. O motivo? Desde o ano passado, a inflação do cafezinho americano mais que dobrou para o consumidor final, segundo a NCA (National Coffee Association).

Até 2025, os Estados Unidos eram o principal cliente do complexo café do Brasil – incluindo café verde e café solúvel. Com o anúncio do primeiro tarifaço, as vendas recuaram.

No caso do solúvel, a Alemanha passou os Estados Unidos em liderança de compra. Mas isso gerou preocupação na indústria de torra americana que depende do grão brasileiro para ter os blends que vão para o varejo dos EUA.

Este é outro argumento que a Abics irá utilizar no documento escrito e na audiência de 6 de julho.

“Na defesa escrita, falamos sobre a importância que o café solúvel tem no mercado americano, os impactos na inflação, na agregação de valor, porque é um produto que vai à granel na sua maior parte e o valor agregado é criado dentro do território americano, onde são feito os blends, os envases, a distribuição, a comercialização por empresas americanas, com empregos americanos em jogo”, detalha Lima.

Marcos Matos também irá solicitar retirada das tarifas que pesam sobre o solúvel. Em seu texto de argumentação, antecipado ao CNN Agro, ele frisa que o Cecafé faz um “pedido formal para incluir o café solúvel a granel sem aromatização, medida que proporcionaria benefícios adicionais significativos às empresas cafeeiras norte-americanas, à indústria de produtos de maior valor agregado e aos consumidores, especialmente aos mais sensíveis a preços”.

O diretor-executivo do Cecafé vai defender que a importação livre de tarifas para esses códigos tarifários do café beneficiará os quase 200 milhões de adultos dos EUA que consomem café diariamente.