Agro da América Latina não está preparado para El Niño
Há recomendações sobre a gravidade do fenômeno climático sobre países como Brasil, Argentina, Colômbia e Paraguai, mas governos não têm medidas consistentes para enfrentar complicações climáticas, alertam pesquisadores

O avanço do El Niño em 2026 coloca à prova a capacidade da América Latina de proteger sua produção de alimentos e o abastecimento das economias locais. A OMM (Organização Meteorológica Mundial) prevê o fortalecimento do fenômeno, com mudanças nos padrões de chuva e riscos de seca e calor em diferentes regiões. Para o campo, o alerta exige decisões que vão além do calendário da próxima colheita.
Sistemas agroflorestais, diversificação de culturas e manejo para conservar o solo e a água estão entre os caminhos apontados no debate sobre adaptação. A mudança pode acelerar de imediato, mas seus resultados exigem planejamento, assistência técnica e continuidade. A urgência climática esbarra no tempo necessário para transformar os sistemas produtivos.
“A América Latina não está preparada para o El Niño”, afirmou Heithel Silva, coordenador técnico do IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura) no Brasil, durante um evento sobre economia verde organizado pela Agência de Notícias EFE, em São Paulo, no último 4 de setembro. Na avaliação dele falta à região um diálogo climático mais estratégico e integrado, capaz de conectar adaptação, produção e agregação de valor à agropecuária.
O custo dessa vulnerabilidade já aparece nos levantamentos internacionais. No relatório sobre o estado do clima na América Latina e no Caribe em 2024, a OMM apontou chuvas entre 30% e 40% abaixo do normal na Amazônia e no Pantanal. No outro extremo, as enchentes no Rio Grande do Sul provocaram perdas estimadas em R$ 8,5 bilhões para o setor agropecuário. O documento relaciona os eventos extremos a perdas de lavouras e animais, interrupções nas cadeias de abastecimento e comprometimento da renda rural.
A advertência de Silva expõe uma contradição: países com peso no abastecimento internacional ainda precisam fortalecer a proteção de seus próprios sistemas produtivos. Durante o debate, ele defendeu maior diversificação e uma redução da dependência da monocultura, associando essa transformação à capacidade de agregar valor à produção.
Entre os mais vulneráveis, destacou, estão os pequenos produtores latino-americanos. Para eles, a discussão sobre adaptação se traduz em questões concretas: como manter a lavoura, preservar a renda e continuar produzindo alimentos quando a chuva falta ou chega em excesso.
Silva citou experiências em Sergipe, na Bolívia e no Uruguai que envolvem o IICA e entidades de pesquisa na implantação de corredores agroecológicos. Na descrição apresentada, a estratégia combina faixas de plantas alimentares com espécies de cobertura e adubação verde. O desafio é ampliar o alcance dessas experiências e incorporá-las a políticas permanentes de assistência aos produtores.
A cooperação regional já tem estruturas sobre as quais avançar. O Procisur (Programa Cooperativo para o Desenvolvimento Agroalimentar e Agroindustrial do Cone Sul), por exemplo, reúne instituições de pesquisa agropecuária da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, além do IICA. Sua agenda inclui mudanças climáticas, sustentabilidade e segurança alimentar, com articulação entre pesquisa e políticas públicas.
A existência dessas iniciativas ajuda a dimensionar a cobrança feita no evento: dar escala, continuidade e capacidade de execução à integração regional.
Ministra do Meio Ambiente entre 2010 e 2016, Izabella Teixeira avaliou que o Brasil ainda precisa aprofundar o diálogo climático com os vizinhos latino-americanos e os parceiros africanos. A agenda se concentrou nas relações com China, Estados Unidos e União Europeia, especialmente nas exigências ambientais associadas ao comércio.
A proposta, então, é desenvolver uma cultura de cooperação regional, com agendas verdes compartilhadas e ações coordenadas para enfrentar desastres climáticos. O “pragmatismo verde” defendido pela ex-ministra exige mudanças na governança e a recuperação de uma “expressão regional” que permita integrar soluções.
Nesse processo, a Amazônia é uma referência que, ao ser preservada, garante ao país "um futuro menos vulnerável”, afirmou Teixeira, associando a proteção ambiental à sobrevivência das populações.
Tiago Reis, especialista em conservação territorial do WWF-Brasil, também destacou o papel da vegetação nativa na proteção dos sistemas produtivos. “Mata nativa do Brasil é uma infraestrutura e praticamente um seguro agrícola [aos sistemas produtivos] e funciona como uma previdência a médio prazo”, disse.
Transformar essa visão em política exige orçamento. Durante o encontro, os especialistas defenderam aproximar recursos públicos e privados de iniciativas que tenham a sustentabilidade como fundamento, com capacidade de financiar prevenção, adaptação e continuidade produtiva.
A liderança climática latino-americana dependerá da capacidade de conectar ciência, biodiversidade, bioeconomia e decisões de investimento. Uma agenda entre países que considere os ciclos agrícolas, as particularidades dos territórios e os saberes locais — e que chegue ao produtor antes do próximo desastre.



