Isadora Camargo
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Isadora Camargo

É âncora do CNN Agro News. Jornalista há 15 anos em economia e negócios, é doutora pela USP e pela Universidade de Navarra; passou por Valor Econômico e Agência EFE.

China, UE e EUA concentram comércio do Brasil em meio a barreiras ao agro

Do grupo de maiores parceiros comerciais também está Argentina, cujas relações se mantém fortalecidas pelo acordo Mercosul

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Os dados da balança comercial brasileira até junho mostram que os três principais polos das exportações do país — China, União Europeia e Estados Unidos — seguem no centro da estratégia comercial brasileira, mas por razões muito diferentes. Mesmo com nuances geopolíticas em cada uma dessas parcerias.

Enquanto a China amplia sua importância como principal destino das vendas externas do Brasil e sustenta um superávit bilionário, a relação com a União Europeia avança em valor, mas sob crescente tensão regulatória, e os Estados Unidos já dão sinais de enfraquecimento no fluxo bilateral em meio ao risco de novas tarifas.

Na prática, os números do comércio exterior mostram que o Brasil chega ao segundo semestre de 2026 com seus três principais interlocutores comerciais atravessados por algum tipo de pressão geopolítica, sanitária ou protecionista.

A China continua sendo, de longe, o principal motor do saldo comercial brasileiro. Em junho, as exportações para o país cresceram 24,4% e somaram US$ 12,29 bilhões, enquanto as importações avançaram 27,1%, para US$ 7,8 bilhões.

O resultado foi um superávit de US$ 4,49 bilhões no mês e uma corrente de comércio de US$ 20,09 bilhões.

No acumulado de janeiro a junho, as vendas brasileiras aos chineses subiram 21,9%, para US$ 58,32 bilhões, com superávit de US$ 19,78 bilhões e corrente comercial de US$ 96,87 bilhões.

É uma relação de enorme escala e forte dependência, especialmente para o agronegócio, mas que neste momento convive com um ponto sensível: a cota chinesa para importação de carne bovina.

O avanço acelerado dos embarques brasileiros para a China, em meio ao risco de esgotamento dessa cota ao longo do ano, cria um fator de incerteza justamente dentro da relação comercial mais robusta do país.

Ou seja: o principal parceiro do Brasil segue comprando mais, mas também impõe um limite prático a um dos produtos de maior dinamismo da pauta agroexportadora.

No caso da União Europeia, o cenário é diferente.

Os números mostram uma recuperação importante da corrente de comércio: em junho, as exportações brasileiras ao bloco cresceram 43% e chegaram a US$ 4,89 bilhões, enquanto as importações avançaram 13,9%, para US$ 4,71 bilhões, gerando um superávit modesto de US$ 180 milhões.

No semestre, as vendas à UE somaram US$ 26,91 bilhões, alta de 12,8%, com saldo positivo de US$ 2,64 bilhões. Mas o avanço comercial ocorre em paralelo a uma relação cada vez mais marcada por barreiras regulatórias, sanitárias e ambientais.

O bloco europeu é um mercado estratégico para proteínas, café, suco de laranja e outros produtos agroindustriais brasileiros, mas ao mesmo tempo é a frente em que o Brasil enfrenta maior pressão.

Mesmo com a famigerada EUDR, ou lei antidesmatamento que ficou secundária posto as exigências contra antimicrobianos, por exemplo, as regras de rastreabilidade, critérios ambientais, exigências ligadas a desmatamento se fortalecem como mecanismos de proteção comercial.

Nos bastidores, europeus tentam conter os ânimos do setor produtivo, que há pelo menos três anos reclama de uma concorrência desleal para a entrada de manufaturas do agro brasileiro.

Na prática, a UE segue relevante como mercado e como parceiro político, mas se tornou também o espaço em que o acesso comercial brasileiro depende cada vez mais de conformidade regulatória e menos apenas de competitividade em preço.

Já os Estados Unidos aparecem hoje como o elo mais frágil entre os três grandes parceiros.

Em junho, as exportações brasileiras ao mercado americano cresceram apenas 3,7%, para US$ 3,47 bilhões, enquanto as importações recuaram 12,3%, para o mesmo valor, deixando a balança praticamente zerada no mês.

No acumulado do semestre, porém, a deterioração é mais clara: as exportações caíram 13%, para US$ 17,43 bilhões, as importações recuaram 12,5%, para US$ 18,95 bilhões, e o Brasil acumulou déficit de US$ 1,52 bilhão, com corrente de comércio de US$ 36,38 bilhões — queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esse enfraquecimento ocorre justamente quando ganha força a ameaça de um tarifaço americano sobre produtos brasileiros que pode chegar a 37,5% para certos produtos, o que adiciona um componente político à perda de dinamismo comercial.

Diferentemente da China, que hoje representa demanda, e da União Europeia, que representa exigência regulatória, os EUA se colocam como um vetor de risco mais diretamente protecionista, com potencial de afetar setores relevantes da pauta brasileira caso novas tarifas avancem.

O retrato do semestre, portanto, é o de um Brasil que segue profundamente ancorado em três grandes parceiros, mas sob pressões de naturezas distintas.

Na China, o risco é de dependência concentrada e gargalo em cotas para proteínas; na União Europeia, o desafio é transformar competitividade agrícola em acesso regulatório; e, nos Estados Unidos, a principal ameaça é a escalada tarifária e o esfriamento da corrente bilateral.

Para o agronegócio brasileiro, que tem nesses mercados seus principais destinos ou referências de preço, a geopolítica deixou de ser pano de fundo e passou a ser uma variável central da balança comercial.