Isadora Camargo
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Isadora Camargo

É âncora do CNN Agro News. Jornalista há 15 anos em economia e negócios, é doutora pela USP e pela Universidade de Navarra; passou por Valor Econômico e Agência EFE.

Choques no diesel e fertilizantes ampliam risco de pressão sobre alimentos

Analistas já projetavam um IPCA de alimentos em 2026 'desestacionando' devido a problemas de safra de alguns itens. Com a Guerra, cenário deve piorar

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A alta recente nos combustíveis, especialmente no diesel, já começa a se traduzir em pressão sobre custos ao longo da cadeia produtiva — mas o impacto final ainda é incerto. Segundo Francisco Pessoa Faria, do FGV Ibre, não é simples determinar se esse aumento será absorvido pelo produtor ou repassado ao consumidor.

Em alguns casos, a elevação do frete penaliza diretamente o produtor. Mas, no contexto atual, o efeito tende a ser mais amplo: o diesel encarece não apenas o transporte de longa distância, como também a logística dentro das cidades e do cinturão agrícola. Além disso, pesa diretamente no custo de produção, já que abastece máquinas usadas em etapas como colheita, adubação e irrigação.

Ainda assim, o principal foco de preocupação não está no diesel, mas nos fertilizantes. A escalada do gás natural liquefeito (GNL) no Catar acende um alerta porque o insumo é essencial para a produção de amônia, base dos fertilizantes nitrogenados.

O cenário remete ao choque global observado entre 2020 e 2022, quando uma combinação de fatores — da peste suína africana na Ásia à pandemia de covid-19, passando por restrições comerciais, crise logística e eventos climáticos — impulsionou a inflação de alimentos no mundo. Naquele período, um dos principais vetores de pressão foi justamente o mercado de fertilizantes, fortemente dependente de gás natural.

A situação se agravou com sanções à Rússia e à Belarus, importantes fornecedores globais, além de problemas na infraestrutura de transporte de gás. Para Faria, o momento atual apresenta semelhanças preocupantes: trata-se de um choque de oferta “duro”, com potencial de elevar custos em toda a cadeia produtiva.

Os efeitos sobre os alimentos tendem a ser indiretos, mas relevantes. Há risco de desdobramentos em diferentes mercados: maior pressão sobre o açúcar, com possível priorização do etanol; impactos na soja, que podem encarecer a ração animal; e efeitos em cadeia sobre proteínas.

Esse cenário se soma a uma tendência que já era esperada para 2026: a inflação de alimentos deve apresentar comportamento menos benigno do que no ano anterior. Produtos como café e açúcar já vinham pressionados, enquanto carnes tendem a subir por fatores de ciclo pecuário. Arroz e feijão também enfrentam restrições de oferta, e os hortifrutigranjeiros — tradicionalmente voláteis — devem registrar altas ao longo do ano.

O resultado é uma pressão adicional sobre um quadro que já indicava elevação de preços, ainda que com alguns vetores de alívio. Parte desses amortecedores, no entanto, pode perder força diante do novo choque de custos.

Apesar disso, o Brasil mantém uma posição relativamente mais favorável por ser um grande exportador de alimentos. O câmbio, até o momento, também não tem atuado como fator de pressão adicional. Por outro lado, a ausência de uma política robusta de estoques limita a capacidade de resposta do país a choques dessa natureza.

Na avaliação do economista, o espaço para mitigar esses impactos é restrito — o que reforça o alerta para um cenário de maior pressão inflacionária nos alimentos nos próximos meses.

Danos à infraestrutura de energia atrasam retomada da produção de fertilizantes

Os ataques à infraestrutura energética estão retardando a retomada da produção de fertilizantes ao comprometer a cadeia de suprimento de insumos críticos. Linville explica que “agora será necessário primeiro realizar os reparos, depois retomar a produção de gás e petróleo e, só então, reiniciar a produção de fertilizantes”, descrevendo um processo de recuperação em etapas.

Assim, mesmo que as rotas de transporte sejam reabertas, a produção não pode ser retomada enquanto os sistemas energéticos a montante não forem restabelecidos. Esse risco de encadeamento amplia a incerteza sobre a oferta e eleva o potencial de volatilidade persistente nos mercados de nitrogenados.

Nesta perspectiva, Josh Linville alerta que as interrupções no fornecimento de fertilizantes estão se tornando estruturais, o que evidencia uma transição clara em relação aos atrasos logísticos de curto prazo. É um dano iminente de perda de produção a curto-prazo.

Com isso, a recuperação já não depende apenas da reabertura de rotas comerciais, mas da reparação de infraestruturas danificadas em meio a um ambiente de conflito ativo. Esse cenário amplia o prazo para normalização da oferta e aumenta a probabilidade de um aperto prolongado nos mercados globais de fertilizantes.

No Brasil, a cadeia de fertilizantes, que incluem indústrias, distribuidoras e revendas, vai sofrer um segundo golpe. Após quebras financeiras em 2022, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, mais um conflito bélico de grande porte para incluir numa conta que não fecha.

Resultado? Previsão de aperto de cintos em um momento que as margens de lucro continuam achatadas e que o crédito custa caro no país. Algumas, inclusive, se endividaram, judicializaram suas operações e aguardavam serem salvas por safras robustas e custos mais adequados à realidade macroeconômica. Infelizmente, a mudança do cenário deve demorar.