Juta e malva: do cultivo amazônico ao vestido de Alice Carvalho no Oscar
A juta e malva na região Amazônica são cultivadas em pequena escala, em áreas que variam de 1 a 4 hectares, com foco na indústria têxtil e artesanato

O Brasil não levou o Oscar, mas o tapete vermelho conduziu ao estrelato duas fibras vegetais típicas da Amazônia: a juta e a malva.
A atriz Alice Carvalho “sustentou o look” que representa uma cadeia produtiva silenciosa, formada por milhares de famílias ribeirinhas da região Norte.

Trata-se de uma atividade que atravessa gerações, mas que vem perdendo espaço ao longo das últimas décadas, mesmo sendo fonte de renda para agricultores familiares que vivem principalmente ao longo dos rios Negro e Solimões.
O ciclo das águas dá vida às fibras vegetais, cujo cultivo acompanha o ritmo da floresta. As sementes são lançadas no solo fértil das várzeas amazônicas quando as águas baixam. Ali, os nutrientes acumulados pelas cheias garantem o desenvolvimento das plantas.
Meses depois, entre agosto e setembro, colhem-se os ramos longos e fibrosos, que seguem para processos de maceração, secagem e beneficiamento antes de chegar às fábricas têxteis.
Além de tecidos, a juta e a malva são historicamente usadas na produção de sacarias agrícolas — como os tradicionais sacos de café e cacau. Também aparecem em cordas, tapetes, estofamentos e outros produtos industriais.
Apesar da presença simbólica no tapete vermelho de Hollywood, a realidade dessas fibras no Brasil é marcada por um lento declínio produtivo. Nas últimas décadas, a concorrência de fibras sintéticas e embalagens plásticas reduziu a demanda e provocou retração na atividade, além de desafios estruturais como escassez de mão de obra e dificuldades no acesso a sementes e tecnologia agrícola.
Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), hoje, a maior parte da produção brasileira de juta e malva está concentrada na Amazônia, em apenas dois estados: Amazonas e Pará.
Em 2024, o Brasil produziu cerca de 5,4 mil toneladas, com o Amazonas respondendo por 86,8% da produção nacional e o Pará por 13,2%. A área plantada foi estimada em 3,92 mil hectares, segundo a Conab.
A malva domina amplamente essa produção. Em 2024, ela respondeu por 83% do volume total, enquanto a juta representou cerca de 17%. A diferença está ligada à maior adaptação da malva às condições amazônicas e à sua produtividade mais elevada — cerca de 1,4 kg por hectare, frente a 1,3 kg por hectare da juta.
Embora a juta tenha origem asiática, ela se adaptou ao clima tropical da Amazônia desde o século passado - e chegou ao Brasil junto com a imigração japonesa (!). Já a malva é uma espécie nativa da região e acabou se tornando a principal alternativa agrícola para os ribeirinhos quando a produção de juta começou a ter problemas, como escassez de sementes e redução de investimentos em pesquisa, conforme destaca um estudo da Embrapa.
À primeira vista, a diferença entre as duas fibras quase não aparece. Mas há distinções importantes. A malva é uma planta de crescimento rápido, que produz fibras altas, leves e mais alongadas. Já a juta costuma ser menor e gerar uma fibra mais pesada.
"A fibra de malva e juta abrange um contingente de pessoas na sua cadeia de produção, desde dos extratores de semente no Pará, produtores de fibra e as empresas de aninhagem", informa em descrição online a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que tem um campo experimental de malva desde 2021.
Ainda assim, o cultivo mantém um valor social importante. A cadeia produtiva envolve principalmente agricultores familiares e comunidades ribeirinhas, para quem a fibra representa uma das poucas atividades agrícolas compatíveis com o regime de cheias e vazantes dos rios amazônicos.
As plantas não demandam uso de produtos químicos, como reforça o estilista amazonense Normando, em seu Instagram. "O processo é sustentável e 100% orgânico e da Amazônia brasileira", diz o artista.
Ele assina o vestido de Alice Carvalho, que levou mais de 100 horas para ser confeccionado, no município Castanhal, no Pará.
As fibras nascem e desenvolvem a partir dos rios e igarapés da região. Por isso, quando a juta e a malva aparecem em passarelas internacionais — em coleções de alta costura de marcas como Chanel e Dior ou em figurinos que chegam ao tapete vermelho — há mais do que moda ali.
Há uma história agrícola inteira entrelaçada nos fios.Tudo para lembrar que tecidos também se plantam.



