"Liberdade para comprar cerejas": a nova fase de importação da China
Pequim pretende ampliar compras externas de alimentos de qualidade e tecnologia durante o novo Plano Quinquenal, enquanto preserva mecanismos de proteção para setores considerados estratégicos

Da "liberdade para comprar cerejas" à estratégia da China em uma nova fase do plano de importações, que mantém barreiras seletivas, mas abre espaço para compra de produtos agrícolas de "maior qualidade". Assim definiu a autoridade chinesa em uma coletiva de imprensa realizada na quarta-feira (22), mesmo dia da vigência de tarifas de 25% dos Estados Unidos sobre o Brasil.
A China pretende ampliar as importações de produtos agrícolas de alta qualidade nos próximos cinco anos, em um movimento que reforça seu papel como maior comprador global de alimentos, mas sem abrir mão de instrumentos de proteção ao mercado doméstico. A avaliação foi publicada nesta quarta-feira (22) pelo Global Times, jornal ligado ao Partido Comunista Chinês, após o governo anunciar diretrizes do 15º Plano Quinquenal (2026-2030).
Em uma imagem simbólica utilizada pelas autoridades chinesas, o porta-voz da Administração Geral das Alfândegas, Wang Jun, afirmou que o país saiu da "liberdade para comprar cerejas" para a "liberdade para comprar duriões", numa referência ao aumento da oferta de alimentos importados disponível aos consumidores chineses.
A mensagem, porém, vai além da variedade nas prateleiras: sinaliza que Pequim pretende ampliar as compras externas para atender ao crescimento da demanda doméstica e à melhora do padrão de consumo da população.
Segundo o Global Times, a China pretende aumentar as importações de produtos agrícolas de alta qualidade, além de tecnologias avançadas, componentes estratégicos e recursos energéticos. A estratégia também prevê diversificar a origem dos fornecedores, reduzindo a dependência de mercados específicos e fortalecendo a segurança das cadeias de abastecimento.
China é o elo chave das balanças comerciais de Brasil e EUA. Desde 2018, compra menos dos EUA e mais do Brasil. Mas de janeiro até agora, implementou cotas - barreiras técnicas legais pela legislação de comércio exterior chinesa - para controlar o que adquire de fora, o que pesou principalmente para o setor de carnes brasileiro.
Dependência da China?
Ao mesmo tempo, a política não representa uma abertura irrestrita do mercado chinês. Pequim continua utilizando instrumentos de gestão comercial, como cotas tarifárias, salvaguardas sanitárias e regras de acesso ao mercado, especialmente para produtos considerados sensíveis. Um exemplo é a carne bovina, cuja entrada segue limitada por cotas de importação e mecanismos regulatórios que permitem ao governo calibrar o ritmo das compras conforme os interesses domésticos.
Para o Brasil, principal parceiro comercial da China e maior fornecedor de produtos do agronegócio ao país asiático, a sinalização reforça uma tendência observada nos últimos anos: o mercado chinês continua dependente das importações para garantir o abastecimento de alimentos, mas busca diversificar origens e manter instrumentos que lhe permitam administrar esse fluxo de acordo com sua política industrial e de segurança alimentar.
Dados da ApexBrasil mostram que a China permanece como o principal destino das exportações brasileiras, respondendo por cerca de um terço das vendas externas do país. O agronegócio concentra a maior parte desse fluxo, com destaque para soja, carnes, celulose, açúcar, algodão e café.
Na análise publicada pelo Global Times, especialistas chineses afirmam que a expansão das importações faz parte da estratégia de abertura econômica do país e responde ao avanço da modernização industrial e ao aumento do consumo interno. Ao mesmo tempo, o jornal argumenta que a política diferencia a China de países que vêm adotando medidas mais restritivas ao comércio internacional, reforçando a narrativa de Pequim como defensora do livre comércio.
Segundo a Administração Geral das Alfândegas, somente neste ano a China autorizou o acesso de 264 categorias de alimentos e produtos agropecuários provenientes de 79 países. Atualmente, mais de 150 países e regiões fornecem alimentos ao mercado chinês, e o governo afirma que continuará ampliando o acesso para produtos estrangeiros que atendam aos requisitos sanitários e de qualidade estabelecidos pelo país.
