Estudo aponta comparecimento de eleitores em SP como fator decisivo em 2022
Economistas da EQI Research avaliam qual perfil de eleitor teve mais peso na vitória de Lula e o que isso indica para 2026

Um estudo da EQI Research indica que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022 esteve associada ao aumento da participação eleitoral no Sudeste, com São Paulo exercendo papel central nesse movimento. Segundo a análise, a redução de votos brancos, nulos e abstenções no estado foi o principal mecanismo que diminuiu a vantagem de Jair Bolsonaro (PL) em São Paulo, de 8,1 milhões de votos em 2018 para 2,7 milhões em 2022.
O levantamento, assinado pelos economistas Stephan F. Kautz e Igor Cadilhac, busca responder a uma pergunta que vai além do mapa eleitoral: não apenas onde Lula conseguiu reduzir a diferença, mas quem foram os eleitores responsáveis por essa mudança.
De acordo com o estudo, o principal achado é que a queda da abstenção em São Paulo se concentrou entre eleitores de baixa escolaridade, sobretudo homens. Esse grupo teria comparecido às urnas em maior volume em 2022 e ajudado a ampliar o número de votos válidos em segmentos mais favoráveis à esquerda.
Para os autores, a conclusão é relevante porque São Paulo foi o estado em que Bolsonaro obteve sua maior vantagem absoluta — isto é, em número de votos — sobre Lula. Mesmo assim, essa diferença caiu de forma expressiva em relação a 2018, quando venceu o ex-ministro Fernando Haddad (PT) com mais de 8 milhões de votos de diferença.
Como a eleição de 2022 foi decidida por pouco mais de 2,1 milhões de votos, menor diferença de uma disputa presidencial, a mudança paulista teve peso potencialmente decisivo no resultado final, na avaliação dos autores do estudo.
Em 2022, houve redução da abstenção eleitoral entre o primeiro e o segundo turno, um fato inédito nas disputas presidenciais – na rodada inicial de votação, 20,9% dos votantes cadastrados deixaram de comparecer às urnas.

Inferência ecológica
Para chegar a essa conclusão, a EQI utilizou uma técnica de inferência ecológica. Como os dados do TSE informam o resultado por município e a composição do eleitorado, mas não revelam como cada grupo votou individualmente, o estudo estima probabilidades de voto a partir da variação demográfica entre estados. O modelo considera gênero, escolaridade e faixa etária, com estimativas para voto na direita, voto na esquerda, abstenção, branco e nulo.
O estudo também aplicou um modelo bayesiano para lidar com a incerteza estatística. Na prática, isso significa que os resultados não são tratados como uma medição direta do voto de cada grupo, mas como estimativas probabilísticas sobre o comportamento de diferentes perfis do eleitorado.
O segundo achado importante é que a melhora de desempenho da esquerda em São Paulo não ocorreu de maneira homogênea. Segundo a análise, a redução da diferença entre Lula e Bolsonaro se concentrou principalmente nas faixas de 35 a 44 anos, 55 a 69 anos e 45 a 54 anos, nessa ordem. Ou seja, os eleitores de meia-idade aparecem como protagonistas da redução da vantagem bolsonarista no estado.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra uma tendência distinta entre os mais jovens. Entre eleitores de até 34 anos, a propensão predominante foi mais favorável à direita, com exceção das mulheres de baixa escolaridade. Já entre os mais velhos, o movimento em direção à direita ficou mais restrito a grupos específicos, como homens acima de 70 anos e homens de baixa escolaridade entre 35 e 44 anos.
“Foram duas surpresas: essa maior propensão de voto dos mais jovens à direita e a menor abstenção de homens de menor escolaridade”, explica Kautz. “Nossa avaliação é de que esse público masculino de 25 a 45 anos e baixa escolaridade teve peso importante na vitória de Lula em 2022.”
Para Cadilhac, esse histórico ajuda a explicar, além do fato de ser o maior colégio eleitoral do país, por que a montagem do palanque em São Paulo é crucial para a campanha à reeleição e o quanto o desempenho do pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, deve ter como foco recuperar a vantagem que a oposição ao PT já teve no estado.



