Brasil muda perfil da exportação por contêiner e amplia mercados
Movimentação renova recorde e cresce acima da média global impulsionada por cargas de maior valor agregado

A movimentação de cargas por contêineres nos portos brasileiros mudou de perfil nos últimos meses. Além disso, as rotas escolhidas para exportações e importações foram ampliadas em meio aos efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos.
Os dados são do Observatório de Infraestrutura do IBI (Instituto Brasileiro de Infraestrutura), obtidos em primeira mão pela CNN. O levantamento mostra que a movimentação de contêineres passou de 1,2 milhão de TEUs – unidade equivalente a um contêiner de 20 pés – em março para 1,3 milhão de TEUs em abril.
Para chegar aos números mais recentes, a entidade realizou um levantamento direto junto aos terminais portuários brasileiros. Os dados de março e abril ainda não foram divulgados pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), que sofreu um ataque hacker em maio e desde então concentra esforços na recuperação e manutenção de seus sistemas.
Os dados anteriores a fevereiro de 2026 foram obtidos junto à Antaq. Com base nesse compilado, o IBI aponta crescimento de 7,7% na movimentação de contêineres nos 12 meses encerrados em abril.
Segundo o gerente do Observatório do IBI, Bruno Pinheiro, o resultado chama atenção porque ocorre em um momento de desaceleração do mercado global de contêineres. Enquanto a demanda mundial avançou cerca de 4% em 2025 e deve crescer entre 2% e 3% em 2026, o Brasil mantém um ritmo próximo do dobro dessa média.
Pinheiro, que atuou por 15 anos como servidor da Antaq, afirma que a mudança no perfil da movimentação de contêineres vai continuar sustentada por fatores considerados mais estruturais do que conjunturais.
O levantamento aponta que, nas importações, os bens de capital, como máquinas e equipamentos, registraram a maior expansão de 2025, com crescimento de 23,7%. Já nas exportações, produtos tradicionalmente embarcados em contêineres, como café verde e algodão, atingiram recordes históricos. Ao mesmo tempo, carnes, açúcar e celulose ampliaram sua presença em mercados internacionais.
O desempenho também ocorre em meio à reorganização dos fluxos comerciais brasileiros após o impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Em 2025, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano recuaram 6,6%, chegando a registrar queda de 35,4% em outubro - mês em que foi anunciado a incidência de tarifa em diversos produtos brasileiros.
Apesar disso, a movimentação portuária continuou crescendo. Segundo Pinheiro, isso ocorreu em função do fortalecimento das relações comerciais com a China e da ampliação das vendas para países como Argentina e Índia.
Outro ponto destacado pelo gerente do Observatório do IBI é a “qualidade desse crescimento”. Segundo ele, o avanço da movimentação está associado à entrada de máquinas e equipamentos para a indústria e ao aumento das exportações de commodities com maior valor agregado, fatores que sustentam perspectivas positivas para os próximos anos.
Outro elemento que ajuda a explicar o resultado é a expansão contínua da cabotagem. O transporte de cargas entre portos brasileiros mantém uma trajetória de crescimento há quase uma década.
Com a perspectiva de aumento da movimentação de contêineres no país, Pinheiro avaliou que os atuais gargalos nos acessos portuários já demonstram a necessidade de ampliação da capacidade instalada e que há risco da infraestrutura atual não suportar esse ganho de capacidade.
Nesse contexto, o setor ainda aguarda a realização da maior concessão de contêineres do país, o Tecon Santos 10. Além disso, há expectativa de que ainda em 2026 ocorram três leilões de terminais dedicados à movimentação de contêineres. Juntas, essas quatro licitações seriam as primeiras voltadas para esse tipo de carga em uma década.



