Jenifer Ribeiro
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Jenifer Ribeiro

Jornalista especializada em infraestrutura de transportes, com MBA pelo Ibmec. É movida por transformar temas complexos em histórias acessíveis

Déficit de motoristas chega a 30% no transporte interestadual

Mudança no perfil dos profissionais, envelhecimento da categoria e migração para outros setores ampliaram a falta de mão de obra nas empresas de ônibus

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O transporte rodoviário interestadual de passageiros enfrenta um déficit de aproximadamente 30% de motoristas em todo o país. O cenário tem levado empresas e entidades do setor a discutirem medidas para atrair novos profissionais e entender as mudanças no perfil da categoria.

Atualmente mais de 60 mil profissionais atuam no segmento, mas seriam necessários quase 86 mil motoristas, de acordo com os dados da Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros). Estados do Centro-Oeste estão mais desfalcados que outras regiões.

Embora o déficit ainda não comprometa a operação das empresas por causa do desaquecimento do mercado, o cenário preocupa o setor no médio e longo prazo. Atualmente, muitas empresas incentivam motoristas já aposentados a permanecerem na ativa para suprir a falta de profissionais. A avaliação, no entanto, é que essa solução é temporária, já que esses trabalhadores podem enfrentar dificuldades para renovar a habilitação profissional nos próximos anos, ampliando o risco de escassez de mão de obra.

Segundo a presidente da Abrati, Letícia Pineschi, a escassez de mão de obra é resultado de uma combinação de fatores que transformaram a profissão nos últimos anos.

Entre eles está a mudança no comportamento dos trabalhadores, que demonstram menor interesse em atividades que exigem viagens longas e pernoites fora de casa. "O motorista não está muito interessado em dormir longe de casa", afirmou a executiva.

De acordo com ela, muitos profissionais migraram para ocupações que permitem retornar diariamente para suas residências, como o serviço de transporte por aplicativo, táxi ou transporte coletivo.

Outro motivo apontado por Letícia está relacionada às novas competências exigidas pelo setor. Além da condução do veículo, os motoristas passaram a desempenhar funções ligadas ao atendimento ao público e ao uso de tecnologias embarcadas.

Por isso, segundo ela, alguns motoristas decidiram prestar serviços de transporte de cargas, atraídos por remunerações semelhantes e sem a necessidade de interação com passageiros.

Para tentar reverter esse quadro, a Abrati e a CNTTT (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres) estão estruturando uma pesquisa nacional para identificar o perfil atual dos motoristas e compreender quais fatores poderiam tornar a profissão mais atrativa. O levantamento também pretende mapear demandas da categoria e auxiliar na formulação de políticas de recrutamento e retenção de trabalhadores.

Outro desafio enfrentado pelo setor é o envelhecimento da mão de obra, que está próxima da aposentadoria, o que pode ampliar ainda mais o déficit de mão de obra caso não haja renovação da categoria mesmo que com motoristas na mesma faixa etária. Atualmente, a maior parte dos motoristas rodoviários está na faixa entre 40 e 50 anos. Embora isso represente uma oportunidade para profissionais mais experientes, também evidencia a dificuldade de atrair trabalhadores mais jovens para a atividade.

Outro obstáculo do transporte rodoviário de passageiros é a participação feminina, que é “ínfima”. Segundo Letícia, um dos principais motivos de recusa a essa profissão é justamente a necessidade de passar noites fora de casa durante as viagens interestaduais. A executiva afirma que essa realidade pesa especialmente sobre as mulheres devido à divisão tradicional das responsabilidades familiares.

Apesar disso, programas de capacitação do Sest Senat voltados para a formação de motoristas mulheres têm ampliado gradualmente a presença feminina no transporte coletivo e de cargas.

Saúde e segurança

Nos últimos anos, as empresas também elevaram as exigências relacionadas à saúde e à segurança dos profissionais e dos passageiros.

Atualmente, são realizados exames periódicos, testes de bafômetro antes das viagens e monitoramento de fatores que possam comprometer a condução dos veículos, como consumo de álcool, drogas e outros vícios. Algumas empresas passaram ainda a desenvolver ações voltadas para prevenção de dependência em apostas esportivas e jogos online.

Programas de higiene do sono também ganharam espaço no setor. Motoristas recebem acompanhamento médico, avaliações sobre a qualidade do descanso e tratamentos para distúrbios como apneia.

Em alguns pontos de parada, empresas oferecem salas de estimulação com iluminação intensa, alimentação balanceada e bicicletas ergométricas para reduzir o risco de fadiga durante as viagens de longa distância, tendo em vista o alto volume de viagens noturnas.