Licitação bilionária do Metrô-DF acirra disputa de indústria com chineses
Setor ferroviário critica modelo de pregão eletrônico e alerta para risco de concorrência desigual com fabricantes subsidiados pela China

A licitação para a compra de novos trens do Metrô do Distrito Federal abriu uma nova disputa entre a indústria ferroviária nacional e fabricantes chineses. O edital, lançado pelo governo do DF, enfrenta críticas do setor, que vê risco de concorrência desigual caso empresas chinesas participem da disputa.
Recentemente, o governo do Distrito Federal assinou ordem permitindo a compra de trens para 15 novos trens para o metrô local com investimento previsto na ordem de R$ 1 bilhão. Além de modernizar a frota, o executivo da unidade da federação prevê aumentar a oferta de trens no metrô a fim de diminuir o tempo de espera dos passageiros.
A principal preocupação da indústria é o modelo escolhido para a contratação. O edital prevê uma disputa aberta por meio de pregão eletrônico, formato que, segundo representantes do setor, favorece empresas com maior capacidade financeira para reduzir sucessivamente os preços durante a licitação.
A avaliação da indústria ganhou força após a vitória da chinesa CRRC na licitação para o fornecimento de 44 trens ao Metrô de São Paulo. Segundo representantes do setor, o consórcio brasileiro chegou ao limite econômico da disputa, enquanto a fabricante chinesa continuou reduzindo os lances.
"Foi uma concorrência extremamente predatória. Nós tínhamos um consórcio nacional, e esse consórcio parou de oferecer desconto à contrapartida do governo de São Paulo a partir do momento em que o resultado econômico-financeiro seria negativo. O poderio econômico dos chineses é flagrante. A indústria ferroviária nacional foi até o seu limite", afirmou Vicente Abate, presidente da Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) à CNN.
Na avaliação da entidade, fabricantes chineses contam com subsídios concedidos pelo governo do país asiático, o que dificulta uma competição em igualdade de condições com empresas brasileiras.
A indústria também critica a falta de exigências relacionadas ao conteúdo local dos equipamentos, critério utilizado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em outras contratações do setor.
Outro ponto levantado pela indústria instalada no Brasil é o histórico da CRRC no contrato firmado com o Metrô de São Paulo. Segundo Abate, a empresa ainda enfrenta desafios para cumprir o cronograma inicialmente previsto e utilizou o período entre a homologação e a assinatura do contrato para obter credenciamento junto ao BNDES.
Representantes ouvidos pela reportagem próximos à estatal chinesa, apontaram que a empresa cumpre os parâmetros de uso de insumos brasileiros, pois há a instalação da empresa no Brasil - o que foi usado como justificativa para que a empresa conseguisse, por exemplo, linha de crédito na licitação paulista.
Críticas ao edital
Segundo a Abifer, o edital prioriza menor preço, mas deixa em segundo plano aspectos considerados estratégicos, como disponibilidade de peças de reposição, assistência técnica, atualização de softwares, consumo de energia, confiabilidade operacional e o custo de manutenção ao longo da vida útil dos trens.
Para o setor, esses fatores são determinantes em contratos ferroviários, já que um trem pode operar por mais de 30 anos quando recebe manutenção adequada e suporte contínuo do fabricante.
Além do formato da disputa, o presidente da associação aponta outros problemas no edital do Distrito Federal. Um deles é a ausência de definição da fonte de financiamento para a compra dos trens, contrato estimado em cerca de R$ 1 bilhão.
A crítica ao governo é proveniente das dificuldades financeiras que a unidade federativa pode enfrentar após o escândalo do Banco Master. Atualmente, o governo do Distrito Federal finaliza os parâmetros do empréstimo de R$ 6,6 bilhões para o banco de Brasília após os prejuízos causados pelo esquema criminoso.
Participação garantida
Apesar das críticas, a indústria ferroviária instalada no Brasil confirmou que pretende participar da concorrência no Distrito Federal. As propostas deverão ser entregues presencialmente, mas, caso haja mais de um participante habilitado, o edital prevê uma etapa de disputa aberta de preços.
Procurada pela CNN, a CRRC afirmou que pretende continuar participando das licitações brasileiras no setor metroviário. Em nota, a empresa informou que "participará de novos projetos no mercado brasileiro em total conformidade com as leis do país e com as exigências dos clientes em processos de licitação".
Por sua vez, o Metrô-DF não respondeu aos questionamentos da reportagem.



