Avanço chinês na Europa vai além dos 10% de participação no mercado
BYD estuda fábrica no país, Geely já é sócia da Renault e Dongfeng negocia produção com a Stellantis
A indústria automobilística europeia está passando por uma nova mudança nos seus bastidores. Os chineses querem ocupar espaço dentro das fábricas locais, e a França, berço de marcas como Renault, Peugeot e Citroën, está no centro do negócio.
No Salão do Automóvel de Paris, evento que vai até domingo e reúne cerca de 20 marcas chinesas, mais que o dobro da edição de 2024 da bienal, a vice-presidente da BYD, Stella Li, confirmou o interesse de produzir localmente e ampliar a participação da empresa na região.
Ainda não existe um anúncio direto de investimento, localização ou início de produção. Mas o simples fato de a maior fabricante chinesa de veículos eletrificados estudar uma operação industrial em território francês já liga o alerta das marcas tradicionais.
Para crescer na Europa e ampliar o nível de concorrência com as centenárias marcas, assim como fez no Brasil, a BYD precisa fabricar e estabelecer uma cadeia de fornecedores que gere a ampliação da cadeia de autopeças e de novos postos de trabalho.
A meta inicial do projeto será vencer as barreiras comerciais criadas pela União Europeia contra os elétricos importados da China. A BYD, por exemplo, enfrenta uma tarifa adicional de 17%, além dos 10% cobrados na importação de automóveis.
Mas a presença chinesa na indústria francesa não depende de projetos futuros. A MG, como marca inglesa e do grupo SAIC, é a líder entre os orientais e a mais antiga a circular por aqui.
A Geely já mantém uma ligação importante com a Renault. As duas companhias possuem, cada uma, 45% da Horse Powertrain, empresa dedicada ao desenvolvimento e à fabricação de motores a combustão, sistemas híbridos e transmissões.
Os outros 10% são da saudita Aramco. O negócio da Horse foi tão promissor que chegou a ser avaliado em 7,4 bilhões de euros quando a petrolífera entrou na sociedade.
Os chineses já entenderam a reação da indústria e como as clássicas estão buscando na história dos seus produtos uma vantagem. O objetivo é conquistar, com a eletrificação, o público comprador que tem idade média na faixa dos 50 anos.
E essa transformação acontece de forma gradual. A Renault entendeu de forma rápida que dividir custos de engenharia e desenvolvimento é uma maneira de preservar recursos para investir em novos produtos.
Stellantis
No Brasil, o presidente da Stellantis, Herlander Zola, falou de acordos que estabelecem o crescimento da Leapmotor a partir do polo de Goiana, PE, e das conversas com a Dongfeng.
A fabricante chinesa negocia, no Velho Mundo, uma parceria com a Stellantis. O acordo anunciado pelas empresas prevê a possibilidade de produzir veículos eletrificados da chinesa na fábrica de Rennes, na França.
A proposta inclui ainda cooperação comercial e de engenharia, com participação majoritária da Stellantis. Fora da China, é assim que funciona o modelo com a Leap, mas, na França, por enquanto, trata-se de uma negociação, sem produção local confirmada.
As baterias
A AESC, ligada ao grupo chinês Envision, instalou uma unidade industrial em Douai, no norte da França, para atender à produção de veículos elétricos. O projeto, com investimentos de até 2 bilhões de euros (R$ 11,261 bilhões), tem previsão de gerar 2.500 empregos até 2030. Informação que mostra que “os chineses” estão participando do ouro da cadeia automotiva.
*Jorge Moraes viaja a convite da Renault



