Jorge Moraes
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Jorge Moraes

Jornalista, creator, premiado como um dos mais admirados do setor automotivo do país, atua no segmento desde 1995 e está presente nos principais salões nacionais e internacionais

Ferrari perde valor na bolsa e declaração do ex-presidente amplia pressão

Luce, primeiro elétrico da fabricante, provoca reação negativa do mercado

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A Ferrari está para o mundo dos carros assim como o papa está para a Igreja Católica. A marca, que reúne uma legião de fãs ao redor do planeta, é dona dos veículos mais aspiracionais do mundo e, desde os anos 1960, vem criando símbolos como planejou Enzo Ferrari. Certamente, a Luce não estava nos planos dele. Mas o mundo mudou.

A marca do cavalo rampante vive um dos momentos mais delicados de sua história porque seu carro elétrico provocou um verdadeiro tremor na Casa de Maranello. O novo Luce, com 1.000 cavalos de potência e aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, — destaque da nossa galeria de fotos — nasceu derrubando as ações da empresa. A notícia gerou uma série de debates na internet e no mercado financeiro.

Os investidores ficaram assustados e os mais exagerados trataram de dizer que a Ferrari perderia sua essência. Vale lembrar que a BMW já afirmou, dentro da divisão M, que seus carros de alta performance não perderiam a alma da combustão. E o mesmo deverá acontecer com a Ferrari e outras marcas icônicas.

Veja o caso da Lotus, que acaba de chegar ao Brasil. Os ingleses apostam em uma estratégia multienergia para atender diferentes perfis de consumidores. A Porsche também fez o mesmo, mas nada disso foi suficiente para conter os conservadores que desejam manter a Ferrari distante da era elétrica ao mesmo tempo que acompanham a desaceleração de rivais, como a Lamborghini, nesse segmento.

A pressão sobre a Ferrari aumentou mais depois das declarações de Luca di Montezemolo, ex-presidente da empresa entre 1991 e 2014 e líder dos tempos áureos da Ferrari na Fórmula 1, com Michael Schumacher conquistando títulos consecutivos.

Montezemolo afirmou, durante um evento na Itália, que a Ferrari estaria correndo o risco de destruir um mito e que preferia não aprofundar o assunto para não piorar a situação. O respeitado executivo jogou dinamite no mercado europeu de luxo — e a Ferrari sentiu o impacto.

Queda

Na bolsa, a reação foi imediata. As ações da Ferrari chegaram a cair mais de 8% em Milão, enquanto os papéis recuaram cerca de 6% nos Estados Unidos após a revelação do Luce. O movimento acendeu um alerta entre investidores sobre uma possível descaracterização da sua identidade. O nervosismo foi tamanho que, em determinados momentos do pregão, a perda acumulada ultrapassou € 13 bilhões em valor de mercado.

Agora ou vai ou racha.

O elétrico Luce representa a ruptura histórica de Maranello. O modelo busca atingir um novo público e estreia a configuração com quatro portas e cinco lugares, algo mais familiar e até diferente da proposta do polêmico SUV Purosangue.

O carro marca uma era moderna, provocativa e estilosa nos traços da sua arquitetura, contando ainda com a participação do ex-chefe de design da Apple, Jony Ive.

Nos bastidores, executivos do setor reconhecem que o cliente desse segmento é extremamente conservador, mas acredito que a Ferrari queira atingir um novo mercado — que, aliás, não está tão aquecido quanto muitos imaginam, já que os elétricos mais vendidos no mundo são justamente os mais acessíveis.

A conexão emocional com a cor, o som dos motores potentes e a exclusividade quase extrema ajudam a explicar isso. Ainda assim, é cedo demais para falar em crise. A Ferrari continua extremamente lucrativa, mantém margens elevadas e possui uma das clientelas mais fiéis no Brasil e no exterior.

A mais vendida

A Ferrari mais vendida da história é a 360, com mais de 17,6 mil unidades produzidas. Um clássico V8 aspirado que segue desejado até hoje. Ironia do destino ou não, longe do “mimimi”, o SUV Purosangue V12 é atualmente o modelo mais comercializado da marca. Desde 2023, já soma cerca de 6 mil unidades produzidas, em uma média de 2,5 mil a 3 mil carros por ano.