Stellantis acredita no consumidor com liberdade de escolha; ela está certa?
Parceria com chineses e indianos: Jeep, Peugeot e Dongfeng terão novidades além da Leapmotor

O Investor Day 2026 da Stellantis, realizado na última quinta-feira, deixou claro que a montadora está focada em tecnologias capazes de entregar inovação sob demanda ao cliente final.
Sob o comando de Antonio Filosa, o grupo apresentou, em Auburn Hills, nos Estados Unidos, o plano global “FaSTLAne 2030”, um pacote de 60 bilhões de euros (o equivalente a R$ 351,7 bilhões) que promete acelerar crescimento, rentabilidade e renovação de portfólio até o fim da década, respeitando a regionalização dos mercados.
E a eletrificação é um caminho sem volta, avança como um tsunami dentro e fora da empresa, que ampliou parcerias em busca da inovação com grupos chineses e indianos. Leia-se Leapmotor, Dongfeng Motor Corporation e Tata Motors.
A Dongfeng, por exemplo, será responsável pelo desenvolvimento de dois novos modelos das marcas Jeep e Peugeot que chegarão ao Brasil. Sem data revelada.
Carros globais que compartilham plataformas e tecnologias, um modelo de negócio batizado de “freedom of choice”, ou seja, liberdade de escolha.
O consumidor terá de entender mais sobre a nova convivência entre veículos elétricos, híbridos plug-in e HEV, híbridos leves e motores a combustão, dependendo da realidade de cada mercado.
Filosa, com a elegância de sempre, mostrou a que veio. Um ano após assumir o comando global da Stellantis, já afirmou que pretende crescer na Europa e nos Estados Unidos.
A empresa prepara uma dezena de novos produtos nos EUA abaixo dos US$ 40 mil. Todos "recheados" de eficiência mecânica (precisa ser potente e econômico) e forte conteúdo tecnológico.
O modelo brasileiro de estratégia comercial deve ajudar bastante. A empresa já entendeu que precisa dessa flexibilidade para competir no novo mercado global com a China ou contra ela. É uma questão de sobrevivência das marcas e da cadeia de fornecedores.
E vale uma observação importante: na China, o chinês praticamente não deixa espaço para os concorrentes estrangeiros, que precisam ser sócios de dezenas de joint ventures. O mercado local virou uma fortaleza tecnológica e industrial, em que o cliente admira as marcas e respeita o número de 34 milhões de unidades na força de produção.
Movimento e reação
Antônio Filosa representa hoje uma mudança importante em relação à antiga estratégia da era Carlos Tavares, baseada em uma eletrificação acelerada.
Vi esse equilíbrio quando entrevistei o executivo, que destacou mais equilíbrio entre tecnologia, lucratividade e produção inteligente, reforçando o objetivo de economia de 6 bilhões de euros a partir de 2028, mas com um retorno já no próximo ano de um novo fluxo de caixa. O dado devolveu o sorriso aos acionistas.
América do Sul
No painel da América do Sul, Herlander Zola, COO da região, apresentou os próximos movimentos industriais para o continente, destacando o Brasil e a Argentina. Novos produtos, como o Fiat Argo, o Jeep Avenger, a futura renovação da Fiat Strada e os novos planos para a Peugeot, incluindo a próxima geração do Peugeot 208, estiveram em pauta, assim como a fase eletrificada da Citroën.
O executivo bateu no peito a liderança da Fiat nos países, a chegada de novos carros, além dos citados, e mostrou pela primeira vez na tela um SUV de porte médio inédito da marca italiana. Só deu para ver a silhueta.
Zola reforçou as parcerias com chineses e indianos, assunto que você acompanhou na cobertura da CNN Brasil, e argumentou que o sucessor do atual Fiat Argo foi praticamente oficializado, com o mesmo nome, como antecipamos, e será o carro comemorativo dos 50 anos da marca no Brasil.
O compacto deverá inaugurar uma nova fase da líder do mercado brasileiro, com eletrificação leve e arquitetura global. Já em relação aos BEVs — os elétricos puros — nada foi anunciado de novo para a América do Sul, além da atuação da LeapMotor e da agenda de lançamentos dela.
Pernambuco
A fábrica de Goiana, em Pernambuco, uma das operações mais lucrativas da Stellantis na América do Sul, será ampliada até outubro com a conclusão das obras para receber os SUVs Leapmotor C10 e B10.
A parceira chinesa vai lançar antes disso o Leapmotor C16 e o compacto A10, que no Brasil será chamado de B03X, concorrente de modelos como o BYD Dolphin, Aion UT e o Geely EX5.
A nova fase da eletrificação, que alcançará até mesmo a Ram Rampage, chega às picapes, e a prioridade foi aplicar a MHEV na Fiat Toro, com estreia marcada para a próxima semana do sistema híbrido leve de 48V.
O Jeep Avenger, no Rio de Janeiro, ocupará parte da capacidade ociosa da planta de Porto Real, que produziu cerca de 8 mil veículos da Citroën nos primeiros quatro meses de 2026 e, segundo a "firma", tem espaço para melhorar mais. O SUV de entrada da Jeep é peça-chave da expansão da marca abaixo do Renegade.
Plataforma única, software e carro poliglota
A Stellantis pretende lançar 60 novos modelos e realizar cerca de 50 atualizações até 2030, utilizando uma racionalização de plataformas e tecnologias compartilhadas.
Metade da produção mundial deverá ficar concentrada em apenas três arquiteturas globais. A nova plataforma STLA One foi apresentada como um dos pilares dessa transformação. O objetivo é acelerar desenvolvimento, reduzir custos e ampliar a integração entre software, conectividade e direção assistida.

Durante o evento, acompanhamos debates com empresas associadas ao desenvolvimento tecnológico para permitir que os veículos conversem com seus proprietários em até 21 idiomas, por exemplo.
Qualcomm, Wayve e Applied Intuition mostram que a Stellantis quer disputar não apenas o mercado automotivo tradicional, mas avançar no terreno dominado pelos chineses.
A empresa sabe que precisa entregar veículos inteligentes, baterias com autonomia, carros desenvolvidos a partir de uma arquitetura centralizada, com software embarcado, inteligência artificial e condução automatizada.
Os novos veículos do grupo serão assim: receberão atualizações remotas enquanto o proprietário dorme. E, ao acordar, o automóvel poderá informar quais melhorias foram instaladas.
O sistema OTA (Over-the-Air) permite atualizações remotas de softwares e sistemas operacionais por meio de redes sem fio, como Wi-Fi ou conexão móvel.
O colunista Jorge Moraes viajou a Detroit, nos Estados Unidos, a convite da Stellantis.



