Entre tangos e sambas, todos perdemos
Governos, presidentes e ideologias podem mudar, mas Brasil e Argentina continuarão dividindo uma fronteira de mais de 1.200 quilômetros e uma história econômica que nenhum resultado eleitoral consegue apagar

Saudações amistosas de um mundo comercial cada vez mais turbulento. Baixada a poeira da passagem de Javier Milei pelo Brasil, no fim de julho, talvez seja hora de olhar para o que sobrou. O presidente argentino veio ao país para apoiar Flávio Bolsonaro. O governo Lula reagiu. A temperatura subiu. Poucos dias depois, o Brasil decidiu reduzir sua representação diplomática em Buenos Aires no nível de encarregado de negócios. Resultado: ganhamos tensão política e perdemos capacidade de diálogo entre as duas maiores economias da América do Sul.
Eu costumava ter um chefe que, quando a coisa ficava meio nebulosa, dizia: “Pimenta, face the brutal facts”. Não era muito fã dele, mas o método era bom. Pois bem. Vamos aos fatos.
Fato número um: podemos não ser tão hermanos assim, mas seremos sempre vizinhos. A geografia é implacável. Governos mudam. Presidentes passam. Ideologias também. Brasil e Argentina continuarão dividindo uma fronteira de mais de 1.200 quilômetros e uma história econômica que nenhum resultado eleitoral consegue apagar. Os dois países nunca pensaram exatamente da mesma forma. Nem precisam. A questão é outra: o desenvolvimento de um está, em maior ou menor medida, ligado ao desenvolvimento do outro. Comércio, investimentos, turismo, energia, infraestrutura e cadeias produtivas
construíram uma relação que vai muito além de Lula e Milei.
Para boa parte da América do Sul, o Brasil continua sendo mercado, fonte de investimentos e uma peça importante da integração econômica regional. China e Estados Unidos importam, claro, e muito! Mas, conservar a boa vizinhança, cautela e
canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Fato número dois: o Mercosul é um processo inacabado e continua indispensável. Críticas ao bloco temos aos montes. Que ele não funciona como deveria, que engessa seus membros, que protege setores ineficientes, que avançou pouco em mais de três décadas. Há verdade em várias dessas críticas. Mas vamos aos números?
Quando o Mercosul nasceu, em 1991, o comércio entre seus membros girava em torno de US$ 4,5 bilhões. Em 2023, chegou a US$ 49 bilhões. Multiplicou-se mais de dez vezes. Os economistas chamam parte disso de criação de comércio. Tivemos também desvio de comércio e, com ele, algumas ineficiências. Integração econômica não produz apenas
vencedores. Ainda assim, alguma coisa aconteceu nesses 35 anos. O problema talvez esteja em cobrar do Mercosul aquilo que ele ainda não conseguiu ser. Seu próprio tratado fundador previa um mercado comum, porém continuamos tentando completar uma união aduaneira.
A União Europeia também levou décadas para construir o mercado que conhecemos hoje. A união aduaneira europeia foi concluída em 1968, mas o mercado único só entrou em funcionamento em 1993. Integração leva tempo e exige reforma. O Mercosul precisa das duas coisas: continuidade e reforma.
Isso significa olhar para Estados Unidos, China, União Europeia e outros parceiros sem esquecer as vantagens que já construímos dentro de casa. O acordo Mercosul-União Europeia, hoje em aplicação provisória em seu pilar comercial, é talvez o melhor exemplo de como a integração regional pode servir de plataforma para uma inserção internacional mais ampla.
Fato número três: Brasil e Argentina precisam entender o tamanho que realmente têm no mundo. Somos as duas maiores economias da América do Sul. Estamos, como gostava de dizer Pepe Mujica sobre nossa região, “numa esquina importante do mundo”. Importantes, sim. Indispensáveis, não. Não temos poder militar capaz de alterar o equilíbrio de uma guerra. Não controlamos sozinhos grandes fluxos financeiros internacionais. Tampouco fazemos o preço do dólar se mover porque Brasília ou Buenos Aires acordaram de mau humor. Nosso poder está em outro lugar.
Está nos alimentos, na energia, nos minerais, na biodiversidade, no tamanho dos nossos mercados, na capacidade industrial e na possibilidade de construir uma região economicamente relevante. É aí que deveríamos concentrar energia. Brasil e Argentina precisam utilizar o Mercosul como plataforma de inserção internacional e buscar relações estratégicas com União Europeia, Estados Unidos, China e outras potências conforme seus interesses. Sem alinhamento automático porque pensamos parecido e sem rompimento automático porque pensamos diferente. Enquanto o pragmatismo pode ganhar jogo, o imediatismo pode fazer todo mundo se afundar.
Que Brasil e Argentina recuperem rapidamente sua capacidade de diálogo político e diplomático. Lula e Milei podem discordar sobre praticamente tudo. Continuarão governando países vizinhos, profundamente conectados e com interesses econômicos concretos.
As populações dos dois lados da fronteira têm mais a ganhar preservando aquilo que conseguimos construir em comércio, investimentos, turismo, cultura e integração regional do que transformando diferenças ideológicas em política externa.
Entre tangos e sambas, já perdemos tempo demais. Melhor somar. Faz bem ao Brasil. Faz bem à Argentina. E faz muito bem à América do Sul em tempos turbulentos


