Pré-campanha de Flávio trata crise com Michelle como "arranhão"
Time do senador age para conter desgaste, mas operação abafa em público está longe resolver conflito familiar, admitem aliados

A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avalia que a crise desencadeada pelo vídeo com críticas a ele gravado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não passará de um "arranhão" no projeto ao Palácio do Planalto.
A operação abafa em público, porém, está longe de significar a solução do antigo conflito político-familiar, admitem aliados.
Apesar de as declarações da presidente do PL Mulher terem assustado o entorno do pré-candidato em um primeiro momento, a percepção é de que elas estão longe de ter a mesma proporção da revelação dos contatos do parlamentar com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em que o senador pedia recursos para financiar o Dark Horse, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro.
O grupo do filho primogênito do ex-presidente considera que as respostas calculadas de Flávio ajudaram a conter o desgaste nas primeiras 24 horas. Além disso, o monitoramento interno das redes sociais apontou que as declarações de Michelle acabaram tendo repercussão mais negativa para a própria ex-primeira-dama, por serem vistas como um estímulo à divisão da direita.
Em uma fala de 26 minutos, dividida em dois vídeos publicados no fim da tarde de quarta-feira (24), Michelle faz críticas à aliança do PL com o pré-candidato ao governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), e relata que, por isso, foi maltratada, desrespeitada e humilhada por Flávio.
Aconselhado a manter a cabeça fria, Flávio só se manifestou diretamente sobre as críticas em um texto elaborado ao longo do jogo do Brasil contra a Escócia. Na publicação, o senador negou as acusações e disse que estava "de coração aberto" para a madrasta. Depois, a esposa dele, a dentista Fernanda Bolsonaro, também saiu em defesa do marido, dizendo que ele é um "homem leve, respeitoso e carinhoso".
Nesta quinta-feira (25), o pré-candidato à Presidência pelo PL voltou a se manifestar, desta vez em vídeo. Pediu desculpas, disse que não teve a intenção de ofender Michelle e afirmou que "divergências de estratégia não significam divergências de princípios".
Michelle, por sua vez, também baixou o tom em publicação nas redes sociais, dizendo que "não há briga, nem competição" e que "não tem raiva de ninguém". "Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada", afirmou.
A operação de contenção de danos em público, principalmente para evitar desgaste com os eleitorados feminino e evangélico associados a Michelle, contrasta com a irritação com a ex-primeira-dama nos bastidores.
Como mostrou a CNN, integrantes do PL dizem que Michelle Bolsonaro vem buscando um protagonismo que não cabe neste momento. Apesar de reconhecerem sua importância para o projeto do partido entre mulheres e evangélicos, avaliam que ela extrapolou os limites ao expor atritos com o enteado.
Dirigentes da legenda, sob reserva, afirmam também que Michelle defende um preciosismo ideológico que não vence eleição.
Dizem ainda que todas as construções de alianças foram autorizadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que vê na vitória do primogênito a sua chance de deixar a prisão e anular a condenação por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
Aliados de Bolsonaro afirmam que o ex-presidente deverá ser o árbitro do atrito familiar. Avaliam ainda que as querelas no clã só serão aplacadas, ao menos temporariamente, com uma manifestação pública do próprio Bolsonaro.
A avaliação é que o ex-presidente poderá repetir o gesto adotado em dezembro do ano passado, quando divulgou uma carta para confirmar Flávio como pré-candidato do partido ao Palácio do Planalto.


