À PF, Wajngarten diz que era "amigo leal" de Cid
Advogado diz que analisa entrar com ação a quem o acusou de tentar obstruir investigação

O advogado Fabio Wajngarten, ex-secretário especial de Comunicação do governo Bolsonaro, disse à Polícia Federal nesta terça-feira (1º) que seus contatos com o tenente-coronel Mauro Cid, delator no processo de tentativa de golpe de Estado, ocorreram por causa amizade de longa data entre eles.
À CNN, o advogado, que deixou a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em julho de 2024, disse que avalia ajuizar uma ação por denunciação caluniosa a quem o acusar de ter tentado obstruir a investigação da trama golpista.
Wajngarten e os advogados Paulo Cunha Bueno e Eduardo Kuntz prestaram declarações à PF por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). A medida foi tomada depois que a defesa de Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, entregou uma série de documentos à investigação.
Durante o depoimento de uma hora na sede da PF em São Paulo, Wajngarten detalhou a relação com Mauro Cid desde que ambos trabalhavam no governo Bolsonaro.
O ex-secretário de Comunicação contou que o militar esteve com a mulher e uma filha em sua casa em São Paulo em dezembro de 2022, quando assistiram um jogo juntos.
O advogado afirmou ainda que os dois mantiveram contatos frequentes no início de 2023 sobre episódios que vieram à tona do governo Bolsonaro, como o caso do cartão de vacinas falsificados, paradeiros dos móveis do Palácio do Alvorada, as moedas jogadas no espelho d'água da residência presidencial e a saúde dos animais do local.
"Contei à PF que Cid era minha fonte de informação para fazer gestão de crise desses casos", disse Wajngarten à CNN.
O ex-secretário afirmou ainda que visitou Mauro Cid, que ficou preso por quatro meses em 2023, por uma questão de lealdade.
"Eu era um amigo leal e fui visitá-lo. A função do amigo é estar ao lado nas más horas", complementou.
Ele afirmou ainda que foi procurado pelo pai de Cid, o general Mauro Lourena Cid, para conseguir inscrever uma das filhas do ex-ajudante de ordens em uma competição de hipismo.
"Mas eu nunca perguntei de delação. Nunca atuei para tumultuar ou embaralhar a investigação", disse.
À PF, Wajngarten negou que conhecia o perfil no Instagram pelo qual Mauro Cid teria conversado com o advogado. Ele disse que soube das mensagens pela revista "Veja".
Advogado de Bolsonaro
O advogado Paulo Cunha Bueno, que ainda integra a defesa de Bolsonaro, também prestou depoimento à PF e negou que tentou buscar contato com o ex-ajudante de ordens. Ele reafirmou que só manteve contato com a mãe de Mauro Cid em um evento na hípica em São Paulo.
A justificativa já havia sido apresentada em uma petição em que solicitou à dispensa do depoimento, o que não foi atendido.
Cunha Bueno contou que, como é praticante de hipismo, viabilizou a inscrição para que a filha do delator participasse de uma competição no clube em São Paulo.
A mãe de Mauro Cid, Agnes Barbosa Cid, relatou à PF que foi abordada em três ocasiões por Eduardo Kuntz, defensor de Marcelo Câmara. Ela afirmou que, em uma dessas ocasiões, ele estava acompanhado de Paulo Cunha Bueno.
As abordagens teriam ocorrido entre agosto e dezembro de 2023, na Sociedade Hípica Paulista, onde a filha de Cid competia.
Segundo Agnes, os advogados tentavam persuadir a família a trocar a defesa de Mauro Cid e classificou as abordagens dos advogados como "constrangedoras".
Entenda
O ministro Alexandre de Moraes determinou o depoimento de quatro pessoas após indícios de tentativa de obstrução das investigações:
- Paulo Costa Bueno, atua na defesa de Bolsonaro;
- Fábio Wajngarten, advogado e ex-secretário de Comunicação Social da Presidência;
- Marcelo Câmara, ex-assessor da Presidência e réu no núcleo dois do plano de golpe;
- Eduardo Kuntz, advogado de Marcelo Câmara.
A medida foi adotada após a defesa de Cid entregar à PF documentos que indicariam tentativa de interferência no processo, incluindo relatos da família do tenente-coronel sobre contatos com advogados ligados a Bolsonaro.
Os materiais buscam contestar informações prestadas por Eduardo Kuntz, advogado do coronel Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro que já se encontra preso por tentar atrapalhar a investigação.
Kuntz informou ao STF ter sido ele o interlocutor de Cid em uma série de mensagens trocadas nas redes sociais e tornadas públicas pela revista "Veja". O advogado passou a ser investigado por obstrução.
Ele afirmou que nunca havia tomado a frente de procurar Cid ou seus familiares e atribuiu ao tenente-coronel a iniciativa de tentar contato por meio das redes sociais.



